quinta-feira, 5 de julho de 2012

QUANDO A CORRUPÇÃO É LEI

Eu trabalho catorze, quinze horas por dia – eu e tantos outros cidadãos como eu – para esta corja andar impune, à solta, a gastar o que não é deles? Que parvo que eu sou! Que somos!

 Assisti, no passado sábado, a uma conferência na Universidade Lusófona do Porto em que o Dr. Luís de Sousa, presidente da TIAC (Transparência e Integridade, Associação Cívica), juntamente com o Prof. Paulo Morais, vice-presidente, evidenciaram aspetos da catástrofe que é a corrupção em Portugal. Sugiro que se consulte o website dessa associação: www.transparency.org, para que haja consciência desse cancro e das suas profundas metástases.
 
Só quem sabe poderá agir com eficácia.
 
Pelo caminho, de regresso a casa, comprei os jornais de fim de semana e, ao ver a primeira página do Expresso (30 de Junho de 2012) saltou-me logo à vista a imagem de um homem, em patente estado de desespero, agarrado ao Mercedes do Ministro da Economia, e, a tentar subjugá-lo, um segurança bem armado. Um “abraço”, pelas costas, do poder à miséria, conclui.
 
Dispersei o olhar por outras parangonas dessa primeira página e que vi? Claro, o outro lado desse mesmo poder na sua cumplicidade com as negociatas e o “capitalismo de casino” em que Portugal está afundado:
 
“Condenados do BPN geram fundos do Estado”
 
“Ex-sócio de Moedas gere rendas sociais”
 
“Francisco Louça: o PS é um partido corrompido”.
 
Vieram-me, logo, à memória muitas outras situações em que alguns políticos, encavalitados nos galhos do Estado, direta ou indiretamente, têm roubado o rendimento suado do nosso trabalho: Duarte Lima, Isaltino Morais, Dias Loureiro (ah! são tantos que fico por aqui). E não consegui esquecer os seus cúmplices da banca e da construção civil (… as PPP!). E até o caso dos submarinos (dois processos crime à espera - político-partidariamente – da abençoada prescrição da praxe) voltou a incomodar-me.
 
Eu trabalho catorze, quinze horas por dia – eu e tantos outros cidadãos como eu – para esta corja andar impune, à solta, a gastar o que não é deles? Que parvo que eu sou! Que somos!
 
Como se a corrupção – que todos denunciam, de que alguns beneficiam, mas poucos combatem – não bastasse, sofremos, agora, a punição de gastadores que dizem que somos através de uma austeridade que, mais do que um processo, parece ser já uma situação que veio para ficar. E, ainda mais, assistimos, cada dia que passa ao avanço de um Estado portador de um projeto autoritário e absolutista que não vê à sua frente mais do que números. As pessoas, os cidadãos, são meros algarismos, sem alma, sem transcendência, que valem tanto como os números das estatísticas, ou ainda menos.
 
Lembrei-me também que, no século XVII, em Ingalterra, Jaime II, um rei da jaez destes “monarcas” que nos governam, viu ser-lhe imposto pelo povo a celebre BILL OF RIGTHS – uma declaração dos direitos dos cidadãos contra o seu absolutismo.
 
Em Portugal não vejo, neste momento, uma sociedade civil capaz de se indignar a sério contra o avanço de um Estado que é já, em muitos aspetos, mais totalitário que o do Salazarismo. Ao contrário: parece-me que vamos a caminho do passado e de um qualquer novo Código de Hamurabi, com leis e punições que já não existiam há 4.000 anos.
 
A História não fala só do passado. Também anuncia os caminhos do futuro. Seria conveniente reler, pois, alguns passos do que fez a história de Portugal  e a da Europa. No seu melhor e no seu pior.
 
Isto vai acabar muito mal!

Sem comentários: