quarta-feira, 18 de maio de 2011

MUDAR

Precisamos de saber que Estado queremos – e, sobretudo, que Estado poderemos e queremos pagar.

Vivemos, no nosso país, num tempo crucial quer do ponto de vista económico-financeiro quer social.

Vilipendiados tantas vezes já por credores e seus apêndices internacionais e tutelados por organizações internacionais prestamistas, não poderemos adiar mais a tomada firme de decisões estratégias a longo prazo. E, em tempo de eleições, parece que não será pedir de mais aos partidos a elas concorrentes – e, também, à sociedade civil nas suas diferentes manifestações – que se ponham de acordo sobre as metas e os objectivos estratégicos que teremos de alcançar como nação independente e soberana.

Até agora é por demais evidente que tem faltado lucidez, coragem e vontade para tal aos que nos governam. Mas há que exigi-lo, doravante, e por todos os meios, pois adiar não é mais caminho. Não é possível aguentar mais um país político dividido por banalidades e crispado por lutas pessoais, tanto quanto apático e desconfiado, sem alma nem esperança, desmobilizado.

Urge discutir, pois, um novo modelo económico e social. E tal deverá ser feito por nós, portugueses, segundo os nossos interesses e de acordo com as nossas possibilidades e ambições, bem para além dos constrangimentos resultantes das imposições externas, nomeadamente do acordo a que se chegou com o Fundo Monetário Internacional, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu que, não obstante ter sido necessário, não resolve, no futuro, os nossos problemas estruturais. Que não haja ilusões: livram-nos das dores presentes, amainando-as, mas não curam as doenças antigas, que persistiram se não formos capazes de ir às causas dos nossos males.

Jean-Pierre Dupuy escreveu num livro recente – La marque du sacré (Editions Carnet, 2008)– que, para evitar as catástrofes, teremos que nos “projectar pelo pensamento no momento de pós-catástrofe e, olhando para trás em direcção do nosso presente, ver na catástrofe um destino – mas um destino que poderemos decidir afastar ainda a tempo”.

Os nossos problemas estruturais têm sido, de certo modo, uma catástrofe. Apesar de mil diagnósticos e de outras tantas propostas de solução há uma maldição qualquer que impede o país de os esconjurar.

Carecemos de pensamento estratégico para nos projectarmos no futuro após a crise, olhando o passado, decerto, mas relevando as oportunidades que aí, também, existem. E tudo dentro de uma cultura política negocial que é o que os partidos políticos menos prezam na sua ânsia de capturar o interesse nacional em benefício de si próprios e dos seus prosélitos. Aqui entra o debate das funções do Estado, tão ignorado pelos políticos, mas decisivo para o nosso destino colectivo. Precisamos de saber que Estado queremos – e, sobretudo, que Estado poderemos e queremos pagar. Não haverá mais lugar, no futuro, para um Estado paternalista, pouco exigente, tipo “poço sem fundo” disponível para todos os caprichos.

Não ignoro que o tema é fracturante, mas a verdade é que os portugueses não estão preparados para o inevitável convívio com uma sociedade em que as benesses arbitrarias do Estado não podem ter mais lugar. E nisto não vai um adeus ao Estado social (Cfr. João Carlos Loureiro, Adeus ao Estado Social? - A Segurança Social entre o Crocodilo da Economia e a Medusa da Ideologia dos " Direitos Adquiridos", Coimbra Editora, 2010), mas um apelo à honra e à dignidade, antes de mais (não viver à custa do sacrifício ou dos bens alheios) e, depois, uma chamada à realidade (só podemos gastar aquilo que conseguimos ganhar).

Ter-se-á que mudar mentalidades e hábitos.

Haverá que fazer um ingente esforço para erradicar a corrupção.

Urge denunciar o “chico-espertismo” que grassa na sociedade.

O triunvirato, controleiro, que nos veio pôr a mão em cima ocupou, afinal, o espaço que o nosso desleixo e a nossa apatia de longa data lhe proporcionaram. Um espaço político-ideológico, também, espaço em branco, que os políticos não souberam ocupar ou, então, quiseram voluntariamente conceder-lhe.

Longe vão os traços de um projecto social democrata para Portugal derrotado pelos neoliberais internos e do exterior. Contudo creio bem que é na ordem político-ideológica de uma renascida social-democracia que o país poderá encontrar um quadro de organização política e social adequado ao que somos como portugueses. E, sempre, sempre através de mais democracia, melhor democracia.

Sem comentários: