terça-feira, 26 de março de 2013

PODEMOS CONFIAR NOS BANCOS?


Os bancos tornaram-se negócios e os negócios tornaram-se bancos. Tudo parece começar a acabar neles, neste tempo em que sabemos o preço de  tudo, mas já não temos consciência do valor de nada.

Estamos num tempo de adaptações dolorosas que se diz serem inevitáveis. Num mundo submetido ao poder apátrida das multinacionais e dominado pela alta finança e sua sobranceria.

A insegurança quanto ao futuro, a falta de confiança nas instituições, a injustiça e a desigualdade cada vez maiores, a fragilidade e precariedade do emprego, a rápida obsolescência de quase tudo o que se aprende, a hipocrisia da moral como regra da política, a balcanização e pulverização aceleradas do mapa geopolítico do planeta são os nossos companheiros de viagem.

O que se passou em Chipre, alegadamente imposto pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional, anuncia invernos dramáticos em outros países. Aberta a “caixa de Pandora”, ninguém poderá, com um mínimo de credibilidade, dizer que o mesmo não se verificará de novo.

Os bancos andam a brincar, há muito, com o fogo. O nosso dinheiro é a sua mais valia, com que, depois, de resto, nos alienam e exploram. E não há regulação do sistema bancário que resista quando o regulador é quem fixa as regras da regulação através de subtis e peritos conúbios…

Ainda há pouco a palavra mágica era “se queres dinheiro vai ao …”. Hoje, o que a realidade evidencia é que quem lá foi anda com a corda ao pescoço e com pouca expetativa de sobreviver.

A ideia de que os bancos são entidades fiáveis, éticas, cumpridoras da lei, seguras, não resiste à mais leve e superficial análise. Não é uma questão, aliás, desconhecida entre nós. Os casos do BPN e do BPP, apesar do pouco que desses escândalos se sabe! – evidenciam a opacidade do sistema financeiro que comanda o mundo e tem filiais em Portugal.

Os bancos tornaram-se negócios e os negócios tornaram-se bancos (cfr. Sofia Santos, A Banca em Portugal e a Economia Verde, 2012, p. 117). Tudo parece começar a acabar neles, neste tempo em que sabemos o preço de tudo, mas já não temos consciência do valor de nada. Banqueiros, políticos e seus cúmplices são os donos das nossas vidas levando-nos, atrelados, para onde bem entenderem, com um objetivo único, que é o deles, de maximizar os lucros mesmo que para tal haja que espezinhar a dignidade das pessoas e os mais elementares direitos humanos. Os casos, bem conhecidos, de execuções por incumprimento de pagamentos de empréstimos para compra de habitação – entre tantos outros – são a prova cabal dessa posição.

Há que tomar consciência de que a banca, em 2008-2013, mostrou, afinal, que só vive para si própria e que como os eucaliptos, seca tudo à sua volta. A superioridade negocial que ostenta face ao comum dos depositantes e clientes é um fator de injustiça e expressão da servidão de quantos a ela têm de recorrer. O seu poder absoluto, corrompe absolutamente.

Sei bem como seria difícil viver numa economia sem um organizado sistema bancário. Mas, por mim, não compraria um automóvel em segunda mão a muitos dos banqueiros que têm estado em cena neste mundo que está de patas para o ar (Galeano).

Fique, porém, uma palavra nova e de esperança neste horizonte, bancos orientados por valores como alternativa ao atual sistema financeiro. Bancos que não visam a maximização dos lucros, mas têm objetivos sociais e solidários. É o caso do TRIODOS BANK e do CO-OPERATIVE BANK (ver obra citada, p. 93 ss.). Se a sociedade civil acordar a tempo – o tempo chega sempre, mas às vezes não chega a tempo – poderemos acabar, um dia, com as aves de rapina. Entretanto, caros leitores, não hesitem em utilizar o livro de reclamações que os bancos têm de disponibilizar. Na dúvida, não acredite na seriedade dos seus atos e contratos. Indigne-se. Proteste.

sexta-feira, 15 de março de 2013

O PORTO E A SUA REGIÃO– CAPITAL DA FACHADA ATLÂNTICA DA EUROPA


O Porto e a sua região no contexto da fachada atlântico da Europa constitui-se num território de novas conquistas, de um outro futuro, de maior dignidade cívica.

Poucos se surpreenderão ao verificar o título desta crónica. Sonho antigo, defendi-o com quantas forças pude e ao lado dos grandes homens que, então, partilhavam, no seio do Forum Portucalense, tais ideais. Mas a vida dá muitas voltas e, por isso, essa ambição foi metida na gaveta.

Há dias, porém, fui inquietado por um brasileiro, Cássio Rolim, professor universitário, grande entusiasta da “Construção do Grande Norte” nas suas próprias palavras. Fiquei surpreendido, tanto mais que nos juntamos na presença de um homem do Norte, o Sr. Prof. José Silva Costa. Uns dias depois desse encontro, o Prof. Rolim escreveu-me umas linhas, poucas mas profundas, onde fundamentava uma proposta para o seu projecto de conferências: “A região Norte de Portugal vive uma situação paradoxal. Nela está instalado grande parte do parque produtivo, uma parcela importante da população universitária, e o segundo aglomerado urbano do país. Além disso, mantém importantes relações económicas com as regiões espanholas vizinhas o que possibilita a consolidação de um amplo espaço económico transnacional. No entanto, apesar de todas essas vantagens, vem perdendo participação no PIB português ao mesmo tempo em que tem elevados índices de pobreza.”.

Com tantos autoproclamados “notáveis” no Norte – pensei eu – como é que tem de vir alguém do outro lado do Atlântico para nos chamar à pedra?! Eu senti-me interpelado, desafiado, envergonhado e aqui estou de novo, pois, para convocar os que ainda não desistiram de viver a sua (e na sua) terra para esse combate do futuro: fazer do Porto e da sua região a capital da fachada atlântica da Europa. E devo dizer que o facto de o país estar a atravessar uma gravíssima crise me dá ainda mais alento.

A regionalização do país – que, no transe, seria um instrumento adequado - não tem sido mais do que uma brincadeira na mão dos políticos de vários quadrantes. Ora a defendem, ora a repudiam conforme os seus interesses de ocasião que nunca são, porém, os interesses de Portugal nem os da democracia. A criação das regiões está, desde sempre, prevista na Constituição da República mas, apesar de tantos defensores desta (e dos direitos adquiridos) tal previsão não preocupa os partidos. E até se compreende, pois, nos jogos palacianos das suas ditaduras internas, aqueles tem mais com que se preocupar, ou não fossem hoje essas entidades funestas os líderes da corrupção em todas as dimensões da palavra.

A regionalização, como caminho para se alcançar uma nova sociedade de onde a crise possa ser desalojada, é, porém, um imperativo que só não é compreendido na capital – que ainda se tem por capital de um império colonial e onde, agora, as colónias são as regiões deste maltratado país.

Regiões e cidades estão, porém, no mapa de um outro possível futuro. Já lá vai o tempo dos Estados-nação e não é possível ignorar mais as cidades e as regiões mundo deste tempo global.

O Porto e a sua região, no contexto da fachada atlântico da Europa, constitui-se num território de novas conquistas, de um outro futuro, de maior dignidade cívica. É notório que, para tal, tem qualidades humanas e materiais, muitas delas, porém, desperdiçadas até agora por invejas e egoísmos de autarcas autistas. O tempo exige austeridade mas não proíbe a reflexão e, por aqui, é fácil de concluir que acabou o tempo do cimento e, agora, é o tempo do conhecimento.

Criar valor é o que o Porto e a sua região pode e deve fazer. E é nas PME, que marcam o seu tecido económico, que residem os melhores espaços para desenvolver a economia do futuro que em breve não será mais a de produção em massa. A escala das regiões será a potenciadora maior das inovações tecnológicas que se adivinham, em novos produtos e outros serviços.

Quer queiram, quer não, o Porto e a sua região, na fachada atlântica da Europa, estão no caminho do futuro. Vamos demonstrá-lo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A VERDADE É QUE ALGUÉM TEM DE SOFRER


Alguém tem de sofrer. Nada melhor, então, do que os que sempre sofreram. Até porque já estão habituados.

Vou reproduzir, com a devida vénia, uns parágrafos de um livro luminoso (que ilumina) de Rui Zink e que se chama “A instalação do medo”. Vem na página 124 (1ª ed. outubro 2012): “Era uma vez um rico cujo amigo pobre passava a vida a sarraziná-lo por causa da sua fortuna, até que um dia o rico se fartou e disse: olha lá, se dividíssemos a minha fortuna entre a população inteira do país, quanto achas que dava a cada um? O amigo pobre não queria responder, só que o rico insistiu. E lá acabou por dizer: sei lá, cinco ou dez patacas.

Então o rico foi ao porta moedas e tirou dez patacas. “Olha, aqui está a tua parte. Agora não me chateies mais”.

Neste espírito – estou convencido – vivem muitos neste tempo de austeridade. Uns, resignados, escondem da sociedade as suas dificuldades. Outros, indignados, gritam a sua revolta. Todos estão insatisfeitos.

Nem na pobreza há consensos!

Nem na riqueza há lucidez!

O tempo presente não tem ideais. Não tem líderes, nem homens de Estado. Tudo são loucuras vulgares de gente vulgar. Vivemos as nossas vidas como “vidas instantâneas” sem estratégias de futuro. A política é apenas a “arte de furtar” muito e depressa num tempo de pensamento líquido. Até a vida é furtada à nossa vida.

A “arte da fuga” vai a par com a de furtar. Ninguém é responsável por nada – salvo os que sofrem o castigo da Troika, esses irresponsáveis que andaram a gastar mais do que podiam. Os políticos, do governo ou da oposição, não assumem qualquer responsabilidade social passada, presente ou futura. A culpa morre sempre solteira.

Alguém tem de sofrer. Nada melhor, então, do que os que sempre sofreram. Até porque já estão habituados.

A política do medo tornou-se, por isso, numa forma dominante de governar levando ao descomprometimento com quaisquer valores. Quem se move e age mais rapidamente domina e quem não pode mover-se tão rapidamente é escravizado.

As notícias que chegam do futuro deixam-nos arrepiados. Não há túnel, quanto mais uma luz ao fundo do túnel! O mercado – os mercados – parece terem ganho a batalha. Nada mais conta na era em que entramos. À nossa frente parece haver apenas deserto onde todos os caminhos estão em permanente liquefação.

Não somos donos do presente quando a democracia jaz e apodrece pelo mundo ocidental fora. E não seremos senhores do futuro sem o poder económico e o poder social que já escaparam às mãos dos políticos gasosos que nos capturaram. A inexplicabilidade do presente e a inatingibilidade do futuro é tudo quanto têm para dar à sociedade. Entretanto dizem governar a bem do interesse nacional e para criar condições futuras de bem estar.

Alguém tem de sofrer. Terá mesmo? E se esse sofrimento fosse partilhado por todos e, em vez de levar – como está a levar – à implosão da sociedade, visasse a promulgação de uma ordem nova e melhor?

O maior problema da Europa (e de Portugal) é que não tem voz no mundo atual. Está entregue a uma geração que nasceu e sempre viveu sem esforço num mundo dominado pela ficção científica. Deles só há que esperar, um dia destes, que entoem o de profundis e regressem aos seus lugares de conforto. Afinal não foi assim que fizeram os seus maiores e sem que, em geral, algo de mal lhes tenha acontecido?

Eu recuso as dez patacas.

E vou continuar a chatear.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

JAIME NEVES



Jaime Neves simboliza a recuperação, perante o declínio iminente, do espírito de Abril. E assim será visto para sempre.

 Nunca o conheci pessoalmente, mas Jaime Neves faz parte da minha família emocional.

A Revolução de Abril encontrou-me em Coimbra a estudar Direito. Atraído pelo idealismo das novas ideias democráticas, deixei o mais para trás na convição de que não poderia ficar indiferente aos novos horizontes que se abriam à minha geração.

Convivi, então, com personalidades inesquecíveis – tantas já cá não estão! – de profundidade intelectual e ideológica a toda a prova, de coragem indomável, de amor à Pátria e dedicação integral ao bem público. De todos os partidos, sublinho.

Vivi, também, as atribuições da construção da democracia de que guardo sobretudo na memória o período que se iniciou no 11 de março de 1975 e só acalmou em 25 de novembro seguinte.

Não cabe aqui recordar os meandros desse processo, dos combates travados, dos perigos e riscos que se correram. Sobretudo não quero lembrar os oportunistas, sem coluna vertebral, que da extrema esquerda fascista vieram, depois, a instalar-se nos galhos do poder através do PS, do CDS e, sobretudo, do PSD de Cavaco Silva. A história desses humunculos – ainda andam alguns por aí – é tão vil que alicerça a ideia hobbesiana do “homem lobo do homem”.

É um aceno de gratidão que me move neste escrito em memória de Jaime Neves. Não duvido que a ele – e aos que então o acompanharam – devemos muito do que viemos a ser no novo contexto de relações sociais e políticas decorrentes da sua intervenção em novembro de 75. No meu imaginário a sua ação está gravada enquanto líder e obreiro de um mundo sonhado em abril de 74 e, pouco a pouco, depois, tornado pesadelo. Jaime Neves simboliza a recuperação, perante o declínio iminente, do espírito de Abril. E assim será visto para sempre.

Vivemos num tempo manhoso, imbecil, pródigo em egoísmo quase quarenta anos depois da manhã de esperança que nasceu em Abril de 74. Da profunda incompetência política e, pior, de oportunismo político, do “salve-se quem puder”, de captura da nossa vida societal pelos partidos políticos – o maior cancro da nossa democracia, mas sem os quais, paradoxalmente, não há democracia…

Desconstruíram-se as grandes categorias do pensamento, generalizou-se o precário, vive-se no reino perverso do efémero, do transitório, da mera glorificação do instante. Tempo do pensamento fácil e débil. De cobardia moral e física, onde a liquidificação dos valores destroi o nosso modo de vida.

Homens como Jaime Neves – e alguns, não muitos, mais – terão de continuar presentes no nosso espírito para dar alento às lutas que o presente reclama de nós. Lutar contra a nossa mediocridade, a nossa falta de coragem, o nosso modo de adiar a verdade e a incapacidade de inventar outros possíveis.

Admitimos, sem transigir, que Jaime Neves possa, até, ter estado do lado errado da história. Mas, mesmo que assim tivesse sido – e não foi – ele é um Homem, em toda a dimensão da palavra e em toda a dignidade da espécie. Um homem a lembrar sempre que o taticismo de interesses mesquinhos comanda a vida.

É, disse. Porque no nosso imaginário coletivo, mais ou menos sebastianista, os valores que foram os seus – liberdade, igualdade, fraternidade – ou voltarão a ser os nossos ou não seremos mais dignos do nosso passado democrático tão curto ainda.

A coragem conduz-nos até ao intemporal. O medo, à morte.

Até sempre General!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

CRÓNICA BREVE DE UM ENCONTRO FORTUITO



O mundo em que vivemos despreza a honestidade, castiga o trabalho, recompensa 
a falta de escrúpulos, alimenta o canibalismo.


Cumpre esclarecer, antes de mais, que esse encontro … foram, afinal, dois – melhor, dois em um - embora os meus interlocutores usem o mesmo apelido, Espírito Santo.

Um encontrei-o encafuado entre uns cobertores imundos, deitado na escadaria do meu prédio, entre garrafas desabitadas já de qualquer esperança. Uma côdea de pão, rapada, foi o que me levou à conversa. “Tem fome?”. O outro, entrou-me pela casa dentro – aliás é habitual frequentador da minha intimidade – através das ondas anestesiantes das televisões. Não me deixou falar e debitou palavras, palavras e mais palavras em resposta a pergunta nenhuma. “Porque não se cala?” (era a pergunta que queria fazer-lhe mesmo arriscando o meu futuro).

O Espírito Santo que, julguei eu, teria fome e frio, contou-me, (faltavam-lhe na boca tantos dentes que tive que adivinhar restos de muitas frases) que vivia na rua há anos entre muitas pernoitas nas cadeias construídas – como é que ele o sabia? – com os dinheiros de um outro Espírito Santo que ele, porém, não sabia quem era. Eu que perguntasse, porque toda a gente o conhecia…

Dois homens, duas vidas, a desigualdade absoluta. Portugal 2013.

O mundo está virado de pernas para o ar, conclui ao pensar nestes encontros fortuitos. Lembrei-me, então, de Galeano e do seu famoso livro “Patas Arriba, La Escuela del Mundo al Revés” onde constata o que cada um de nós também poderia dizer: o mundo em que vivemos despreza a honestidade, castiga o trabalho, recompensa a falta de escrúpulos, alimenta o canibalismo. “Cuando un delicuente mata por alguna deuda impaga, la ejecución se llama ajuste de cuentas; y se llama plan de ajuste la ejecución de un país endeudado, cuando la tecnocracia internacional decide liquidarlo. (…) La economía mundial es la más eficiente expresión del crimen organizado. Los organismos internacionales que controlan la moneda, el comercio y el crédito pratican el terrorismo contra los países pobres, y contra los pobres de todos los países, con una frialdad profesional y una impunidad que humillan al mejor de los tirabombas.” (ob. cit., 7ª ed., p. 13-15).

Não tenho soluções na manga para sugerir, mas sei, profundamente sei, que assim não podemos seguir. O lixo e o luxo não podem coabitar mais rasgando o essencial da condição humana.

O capitalismo financeiro, por vezes virtual, é “o que está a dar”. Leva à constituição de fortunas infinitas e, ao mesmo tempo, entope as valetas por onde corre a miséria humana. Era conveniente que alguns senhores do mundo tivessem mais cuidado na destruição física, social e psicológica a que estão a levar muitos, quase todos. E que os da política se desamarrassem dos cadeados da economia e da finança que os tolhe… e de que, por vezes, sobrevivem hipocritamente, até.

Acompanhei, também profissionalmente como advogado, o caso BPN e não tenho dúvidas em considerar que ele é a expressão do crime financeiro organizado e apadrinhado politicamente. Para além de saber que, dos rendimentos que tiro do meu esforço diário de 12 ou mais horas de trabalho (muitas vezes sem conhecer o que é um sábado ou um domingo) o Estado me expropria escandalosamente uma parte substancial para dar aos que foram do BPN nada mais sei dos processos em curso. E adivinho que ninguém, jamais, saberá.

Entretanto os ilustres “engenheiros financeiros” que armaram a roubalheira continuam o seu caminho, cada vez mais poderosos e até famosos. E, porventura, já a preparar o próximo assalto.

Resta-me, neste resumo dos encontros com os Espírito Santo, que, afinal, foi tão breve que nunca mais terminará, perguntar, com o maior ingenuidade: porque não desconsiderar a personalidade jurídica do BPN (o real) e ir à personalidade “financeira” (às contas na Suíça, p. ex.) dos principias accionistas e clientes desse banco?

Alguém me pode responder?


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

REFUNDAR O ESTADO, OU RENOVAR PORTUGAL?


Sempre houve e haverá alternativas quando os homens sonham.
É preciso é não lhes matar o direito de sonhar.

 Neste início de um novo ano, aliás em sequência da tentativa de avaliação feita ao de 2012, interrogo-me, crescentemente impaciente, sobre o presente e o futuro deste país onde vivemos ou apenas já sobrevivemos. E não é só a austeridade que justifica tanta apreensão é, sobretudo, o catastrofismo obscurantista que alguns espalham pela opinião pública num tempo de irracionalidades sobrepostas e interpostas e de incompetência generalizada.

Não se pode ignorar que hoje nos aprisionam a vida numa profunda transformação do mundo onde quase tudo à nossa volta está em processo de desconstrução e desintegração com foros de gravidade e amplitude dramáticos para quase todos. A crise que varre o Ocidente é particularmente sentida neste canto da Europa – é assim que certos poderes não eleitos nos consideram! – e significa crescentes desigualdades sociais, pobreza sem fim e exclusão social acelerada. Não há direitos sociais que resistam já à fúria destruidora do papel do Estado social que nos querem, agora, impor os da grande finança.

O nosso fado chama-se hoje crise num tempo em que a inteligência da vivência humana cada vez se aprofunda mais. A revolta, o medo e a deceção estão presentes no ar que respiramos e sopram já ventos, vindos da profunda regressão da economia, que prenunciam o fim das liberdades políticas. Como referem Nicolas Berger e Nathan Gaudes habituamo-nos a viver em “democracias de consumo” onde não há lugar à preparação de qualquer futuro.

Assim não vamos, porém, a lado nenhum.

A austeridade pela austeridade, de que tanto gostam alguns austeristaristas de serviço, é uma  armadilha dos homens contra o Homem. Mas que precisamos de uma extensa e profunda revisão de comportamentos e, sobretudo crenças (p. ex.: tudo é possível, não há limites para o consumo, o Estado tem de dar tudo, etc.) é uma realidade. Chamemos-lhe metanóia e sigamos essa purificação interior dos maus hábitos de um passado ilusório.
Só que a austeridade sem esperança é gaita que não assobia.

Porque é que temos de empobrecer como expressa ou implicitamente nos impõem os do Terreiro do Paço?

Não há alternativa?

Sempre houve e haverá alternativas quando os homens sonham. É preciso é não lhes matar o direito de sonhar.

Os portugueses não estão condenados à miséria e podem sair do atoleiro em que o país se encontra se for esse o seu desejo. É certo que “um fraco rei, faz fraca a forte gente” mas nós somos maiores que esses austeritários que nos governam sem qualquer ideia que vá além da tabuada.

Temos que trabalhar , produzir e viver.

Trabalhar com inteligência para sermos competitivos num mundo global que aí está. Produzir para partilhar, em solidariedade com os outros portugueses e vender fora, competitivamente, tudo o mais. Viver para além do trabalho porque o homem não foi feito para o trabalho mas o trabalho para o homem. Para o realizar e emancipar.

Quando tantos portugueses abandonam o país em busca de segurança, estabilidade e conforto, será que os que cá vamos ficando não seremos capazes de mudar a tendência confrangedora deste tempo ingrato?

Se quisermos, somos. A condição essencial para isso, contudo, parece ser hoje, mais que nunca, mudar de “rei”, mudar o Terreiro do Paço para o país real, desligar da comunicação social oportunista que temos, e meter mãos à obra para refundar Portugal.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

UE: ENTRE A REFUNDAÇÃO E O PRINCÍPIO DO FIM


A Europa está a ser germanizada. O prémio Nobel da Paz não poderia, jamais,gratificar esse trágico itinerário.

Entre inúmeras críticas, algumas delas profundamente depreciativas, a União Europeia recebeu o prémio Nobel da Paz 2012, alegadamente pela sua contribuição para a paz, a democracia e os direitos humanos durante mais de seis décadas.
E justamente.

Temos de recordar que a Europa, em tempos anteriores – longos tempos! – foi um quase permanente campo de batalha e muito para além das, mais próximas, duas Grandes Guerras mundiais. Sem ir muito longe na história, convém lembrar sucessivas tentativas imperialistas de alguns povos europeus no sentido de dominarem todo o Continente. Desde logo a Guerra dos Trinta Anos entre 1618 e 1648 – um conflito dramático entre os Habsburgos, senhores da Espanha e do Sacro Império Romano-Germânico, da Áustria, Hungria, Boémia, Holanda, Baviera, Flandres, norte de Itália e Bélgica, e os Bourbon de França. Desta guerra saiu o conhecido Tratado de Vestefália e, com ele, o fim da existência de dois poderes na Europa: o temporal e o espiritual em que se vivia então. Trouxe, este tratado, o início da independência dos Estados sobre a situação que era conhecida como Republica Christiana. Não trouxe, porém, a paz. Nos séculos seguintes continuaram a surgir guerras sangrentas na Europa: recordem-se as guerras de 1701-1713, 1756-1763, 1792-1815 (cfr. Paul Viotti, International Relations and World Politics, New Jersey: Prentice Hall, 1947). Depois, as duas referidas Grandes Guerras, o Holocausto, a ocupação soviética da Europa de Leste, a guerra civil na Irlanda e outros conflitos localizados dentro dos Estados europeus, enraizados em nacionalismos abafados e longe de estarem resolvidos. A Catalunha expressa-o hoje com clareza, mas há várias outras situações latentes.

Sem a construção europeia é de admitir que o terror da guerra não tivesse sido esconjurado durante estas últimas décadas da Europa.

O Nobel da Paz tem, pois, sentido em 2012, mas virado ou olhando o passado… É que, no presente, não se enraízam quaisquer esperanças de novas primaveras na União Europeia! A contrário, são inúmeros os fantasmas que voltejam sobre o presente ameaçando o futuro. A incompetência dos líderes europeus dói, tanto quanto a sua “liquidez” política e doutrinária. O populismo avança subtilmente entre a pobreza e os excluídos da sociedade. Os nacionalismos, que nunca morreram, estão a equipar-se, enquanto a democracia sofre dores porventura terminais às mãos da Sr.ª Merkel. Quem se der ao esforço de estudar o contexto sócio-político e financeiro da grande depressão de 1929 vai aí encontrar a sopa de pedra que os europeus tiveram de comer a seguir. Está lá tudo!

Não há qualquer tipo de solidariedade europeia nos tempos que correm e talvez nunca tenha havido qualquer sincera solidariedade fora dos interesses de certos Estados. Lembro, apenas, de passagem, que seria conveniente, um dia, fazer a comparação do que recolhemos dos fundos europeus, relativamente ao que pagamos à Europa e, sobretudo, do que empresas, protegidas de muitos Estados (a França, a Alemanha…) levaram para sua casa dos fundos formalmente atribuídos a Portugal (transferência de tecnologia, realização de grandes obras públicas, empréstimos deles e reembolsos nossos, etc.).

A Europa está a ser germanizada. Ora, o prémio Nobel da Paz não poderia, jamais, gratificar esse trágico itinerário. O medo, a insegurança, a angústia dos europeus que estão a sofrer uma austeridade imoral não poderia aceitar tal gratificação. Seria um sinal para avançar no sentido de um super-Estado, na base de (pretenso) super povo, uma raça alegadamente superior contra todos os outros cidadãos da Europa.

Uma estratégia repetida, nestas colunas, à exaustão tem a ver com a ideia de Portugal como país euro-atlântico. Só nesse âmbito poderemos ser um povo que conte no contexto de um futuro incerto. Há que reler e pensar os escritos do Pe. António Vieira, de Fernando Pessoa e de Agostinho da Silva. Talvez valesse mais a pena do que andarmos de mão estendida às ordens da “Troika”.

E, para terminar: há por aí alguém disponível para levantar um programa tipo ERASMUS no âmbito dos países de língua portuguesa? Aceito ideias e agradeço-as antecipadamente.