sexta-feira, 8 de junho de 2012

PORTUGAL, SA

Levem, levem todos, isto não custa nada, é dinheiro do Estado!

Isto a que se chama Portugal já não é um país, muito menos uma nação, quase já não é um Estado. É, a muitos títulos e crescentemente, uma sociedade comercial.

Uma sociedade anónima.
Integra-se numa “holding”, em desagregação, que tem a denominação de União Europeia.

Os donos do capital dessa sociedade não têm nome na sua maioria (as acções são ao portador) e na assembleia geral apenas estão presentes uns insignificantes, pequenos accionistas sem qualquer poder de decisão que imitam a decisão de outros. Os outros órgãos sociais, em geral, são integrados por uns homúnculos, serventuários, atentos e obrigados, de poderes obscuros, obscenos e não eleitos.

Esclareça-se a metáfora.

Temos formalmente um Governo apenas vagamente, de resto, resultante da vontade dos portugueses (os insignificantes accionistas). Funciona, na realidade, pouco mais do que como uma qualquer “escola de negócios” onde uns preparam o futuro e outros, menos discretos, vão  desviando, para os seus bolsos (gabinetes vários, consultorias…), os lucros que haveriam de ser dos accionistas, ou antecipam-nos, mesmo, para os amigos (as parcerias público-privadas, p. ex.) – que os hão-de retribuir com juros altos quando aqueles deixam o palco. Espertos que sempre foram – de outro modo não tinham lá chegado – mantêm os seus negócios privados. Uns através de testas de ferro provisórios, outros, mais descaradamente, acumulando com a sua tradicional actividade lucrativa: são os governantes em part-time colhendo o melhor dos dois mundos.

Dinheiro público para fazer fortunas privadas.

Impunidade judicial quase total.

A corrupção no mais alto nível com o beneplácito dos partidos – a mais frequentada, aliás, escola da corrupção.

Levem, levem todos, isto não custa nada, é dinheiro do Estado!

Austeridade? Sim, para os que apenas dispõem da sua força de trabalho para vender. Tendo cortado nos salários dos trabalhadores da administração pública (incluindo os subsídios de férias e de Natal) – os outros trabalhadores não devem esperar melhor sorte no futuro próximo – com isso se desrespeitaram obrigações contratualmente assumidas. Inconstitucional? Claro que não, dizem os que, (des)governando este rectângulo a mando de terceiros, pouco mais sabem do que uma rudimentar tabuada. Mas quanto a cortes nos pagamentos da Fazenda Pública aos oportunistas da banca, da construção civil e do imobiliário que desgraçaram, para muitos, muitos anos, as contas cá da terra, isso já será absolutamente inconstitucional. É que estes contratos (nomeadamente os relativos às parcerias público-privadas) tem de ser cumpridos! Seria inconstitucional reduzir os valores a pagar a essa gente…

Temos o direito de nos interrogar. Para que serva, para que vai o nosso dinheiro, o dos impostos? Urge que as pessoas sérias deste país – e ainda são muitas! – peçam contas e exijam que se faça luz sobre o funcionamento de um sistema que autoriza legalmente, ou, pelo menos, consente, a obscena transferência da riqueza pública para alguns privados.

Os favoritos do regime, neste teatro de sombras, em conluio com os que ocupam o poder político privatizam, todos os dias, o que é dos portugueses e vale alguma coisa, enquanto estadualizam (socializam) as perdas. Até quando?

Impera, neste arremedo de democracia em que se vive, sem consequências, um sistema incestuoso onde os poderes políticos – e os que comem à sua mesa, os poderes económico e financeiro, nacionais ou globais – se misturam e misturaram os seus interesses e a sua ganância com os nossos impostos.

A austeridade, a correcção do défice público e o pagamento da dívida do Estado é o outro nome, hoje, para enriquecer, mais ainda, alguns em detrimento de todos.

É porque estamos de joelhos que isto acontece. E não virá muito longe o tempo em que, tudo roubado, os do costume virão gritar a terreiro: a partir de agora é proibido roubar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

D. MANUEL FRAGA IRIBARNE

Chegou primeiro. Espere por nós. Ainda não acabou o nosso combate; o seu já é outro. Obrigado.

Sabíamos que D. Manuel Fraga Iribarne estava biologicamente enfraquecido – mas lucidíssimo – nos últimos tempos. Partiu agora e deixou-nos, também a nós, cidadãos do Norte de Portugal, mais enfraquecidos. E tristres. Foi um grande amigo e impulsionador, como ninguém mais, das relações do Norte com a Galiza, a sua terra mãe, que lhe deve, de resto uma transformação extraordinária que a tornou numa grande região da Europa.


Em 1989, eleito Presidente do Governo da Galiza, e ainda antes de tomar posse, veio, a convite do Forum Portucalense, ao Porto, onde, durante dois dias, deixou vincado o espírito que era o seu – cosmopolita, humanista, pragmático – e o amor que tinha à sua Galiza e que estendia ao Norte de Portugal. Voltou mais vezes e, muitas outras, nos recebeu na sua Galiza prodigalizando-nos gentilezas imprevisíveis. Foi com o seu entusiamo que nasceu e se publicou, a partir de Julho de 1992, o semanário ARCO ATLÂNTICO de que tive o privilégio de ser presidente. Creio que, durante o ano em que se publicou, bilingue, foi um instrumento de aproximação notável entre as duas regiões.


D. Manuel Fraga foi um acérrimo defensor da descentralização – em Espanha chamada autonomia – da Galiza no contexto de uma Europa das regiões jamais igualado por qualquer político da banda de cá do rio Minho.


O seu combate é o nosso e de muitos cidadãos que não desistem – ele nunca desistiu, nem na ditadura franquista nem, depois, na democracia e na transicção entre elas de que foi um pilar inabalável – de lutar contra o poder central que ignora tudo o que não é imperial.


Um homem para a eternidade!


Deixo, a seguir, um excerto das palavras que proferiu numa conferência do Forum Portucalense em 1992. Que tal sirva para lembrar os seus ideais que não morreram. Não morrerão!


“O Atlântico é parte substancial no nosso passado e da nossa cultura e, afinal, parte íntima da nossa história. Para nós o Arco Atlântico tem conotações que vão para além da sua estrita e importantíssima dimensão sócio-económica. Estou convencido de que, desde o Norte ao Sul do Atlântico há um grande labor a desenvolver, por meio da concentração de esforços públicos e privados para consolidar um eixo de desenvolvimento vital para o futuro comum de todas as regiões que o integram, nomeadamente para a Galiza e a Região Norte de Portugal.


O Arco Atlântico é uma ideia, uma ideia mobilizadora, que consiste em reforçar a solidariedade das regiões situadas desde o Norte de Escócia ao Sul de Portugal. É uma estratégia de resposta aos inumeráveis problemas que surgem da evolução contemporânea das economias. (…) Bem, amigos, nos grandes projectos não é bom prescindir em princípio do sonho. (…) Acho que a Galiza e a Região Norte de Portugal podem dentro dos Estados Soberanos de pertença, contribuir seriamente desde dentro e desde fora para que as nossas comuns raízes atlânticas renansçam numa Europa cada vez mais culta e mais orgulhosa das suas diversas origens e do seu comum destino solidário ao serviço do Homem”. E concluiu, assim, a sua reflexão: “Contem sempre comigo. Com um galego que – pelo facto de sê-lo se honra em ser e sentir-se espanhol, português e europeu”.


Contamos consigo, D. Manuel. Heróis como o senhor nunca morrem.


Chegou primeiro. Espere por nós.


Ainda não acabou o nosso combate; o seu já é outro. Obrigado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

EM DEFESA DA LIBERDADE DA PESSOA

A estratégia que move as desconsiderações aos maçons – além de procurar fazer deles bodes expiatórios de problemas alheios – é muito, muito preocupante nas suas causas e efeitos mais remotos.


Desde que atingi a idade de pensar por mim a vida pública, sempre tenho defendido e lutado pela transparência e credibilidade dos atos e contratos com o Estado e das ações dos que nelas se encontram envolvidos. Este escrito é, pois, mais uma achega ao debate que vai no espaço público em torno da defesa da vida privada, designadamente dos membros da maçonaria, do que uma nova abordagem daquelas ideias que tenho por indiscutíveis na sua essência.


E a propósito de tudo o que li e ouvi – tanta asneira, ignorância, inveja! – pergunto-me se o meu país não tem outros problemas para onde a inteletualidade, tantas vezes balofa que por aí perora, possa encaminhar as suas mentes brilhantes e fazer algo a sério pela nossa moribunda sociedade.


A estratégia que move as desconsiderações aos maçons – além de procurar fazer deles bodes expiatórios de problemas alheios – é muito, muito preocupante nas suas causas e efeitos mais remotos. Ninguém poderá ignorar que, atrás do palco, a mover os cordelinhos da peça em cena, está a ganância de negociantes que imperam hoje na comunicação social, nomeadamente tendo em vista a privatização de um canal público de televisão e que, desonestamente, se servem de todos os meios para alcançar os seus fins. Pior, porém, é que, de muitos lados – Oh Sr.ª Ministra da Justiça, não fale do que nada sabe! Acalme-se! Tenha tino! – começam a surgir ideias, velhas e relhas, que, como no tempo das ditaduras de Salazar, de Franco, de Hitler ou de Mussolini, subtilmente procuram minar os ideais da liberdade da pessoa humana e, em geral, dos seus direitos fundamentais e que, também, nesses tempos, amordaçaram a maçonaria. Portugal vive numa situação política em que a democracia está já em suspenso face aos poderes não eleitos que gerem a nossa política (vulgo a Troika) e à expansão da sociedade do medo que a austerização, desumana, nos vem sendo impondo.


Caindo a democracia e vencendo o medo que aí anda a trote que restará à dignidade dos portugueses?


Neste contexto pode-se compreender melhor – e definitivamente – os ataques desnorteados à maçonaria. É que na história e, também, na atualidade, nela reside a última fronteira a franquear pelos ditadores ou candidatos a ditadores. É, nesse sentido, um perigo para estes, porque se constitui uma muralha nunca vencida.


Defendo que os maçons que queiram, se revelem cono tal, mas jamais que uma lei os obrigue a pôr na praça pública o que é da ordem da sua consciência. Pelo contrário reclamo que – com a Sr.ª Ministra da Justiça à frente – todos aqueles que ocupam lugares de autoridade no Estado e, logo, gastam os impostos que pagamos e nos tolhem os destinos (governantes, parlamentares, autarcas nomeadamente) sejam obrigados não só a fazer (ilusórias) declarações de rendimentos, mas, também, de outros interesses. Exemplifico o que quero dizer referindo-me aos advogados que estão nesses cargos (ainda que com inscrição suspensa na Ordem). Reclamo que divulguem, obrigatoriamente, os negócios em que participaram e deixaram nos seus gabinete e em que o Estado tenha algum envolvimento e que, também, durante dois anos após a cessação de funções públicas sejam, também, obrigados a publicitar os seus novos clientes (conheço as regras do Estatuto da Ordem dos Advogados que, entendo, deveriam, porém, ser revogados para tais políticos…).


Calcularão os portugueses as fortunas que esses senhores, a quem demos democraticamente o poder, alcançam dando nome aos escritórios que continuam a manter os seus nomes e a tratar – por interpostas pessoas – os assuntos de Sua Excelências?


O que lhes vale é que, em boa verdade, só a corrupção não é para combater, é para gerir ao sabor das lutas partidárias.


As víboras, como a corrupção, atacam-se melhor no ovo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

CRI(S)E

Deixemos a crise em paz e vamos ao trabalho que faz o Homem, mais do que o Homem o faz a ele.

Começar o ano a falar de crise não parece ser o melhor caminho… a não ser que seja para ajudar a desconstruir o oportunismo e a mentira que diafanamente envolve o conceito.


Por isso – e para isso – dei a esta crónica o título CRI(S)E, com o S entre parêntesis, o que dá CRIE. Não é nada de original, mas poderá ser uma forma de pegar na crise e esconjurá-la. Da palavra crise temos que passar ao verbo criar (crie).


Desde logo uma outra mentalidade, criativa e positiva, o que não depende senão da nossa imaginação. Suscitar reflexões, depois, e criar novas ideias, conceitos e doutrinas para um outro, novo mundo, no qual, porventura, já teremos os pés, mesmo sem a consciência disso. Deixar os lugares de conforto, velhos privilégios e inércias de décadas, e ir à luta, também é preciso.


A mudança é a lei da vida. Aqueles que ficarem a olhar para o passado ou o presente, vão perder o futuro. Não podemos ignorar que, sob o nosso olhar, se desenrola, acelerada pelas crises da primeira década deste milénio, uma profunda transformação do mundo e que a procura de novas formas, regras e princípios – também uma nova linguagem jurídica – é uma ambição cada vez mais acentuada, designadamente pelos que não queiram naufragar pela desadaptação à revolução silenciosa em curso, mas, ao contrário, desejem acompanhar a evolução do modo da vida e a reorganização das categorias básicas que estiveram na base do ainda recente estado de bem estar. Procurar caminhos para adaptar, renovar, reinventar, porventura, os nossos comportamentos é urgente, sendo que devemos estar precavidos para aquilo a que Gilles Lipovetsky chamou “o império do efémero” e “a apoteose do presente social”, que o exprime, sob pena de se perder o melhor do passado e nada a ganhar no futuro.


Há um mundo e um modo de vida que está posto definitivamente em causa, face a “coisas novas” que nos desafiam, tais como a globalização, a “sociedade de risco”, as mudanças tecnológicas, a pluriformidade, ou as questões demográficas e económico-financeiras, entre outras. Não vale a pena escamotear a realidade.


Perguntar-se-á, porém, como poderá um pretensamente pequeno, frágil e periférico país rumar para um outro e melhor estar. Mas quem provou já que aquelas afirmações são verdadeiras e, sobretudo, inexoráveis?


Seria bom que, neste ano em que Cassandras várias anunciam o tempo de todos os demónios, tivéssemos a luz suficientemente para percebermos que este nosso país tem uma riqueza que nenhum outro mais tem: os portugueses.


Cabe-nos desbravar o futuro e, por aí, só poderemos avançar com o nosso próprio trabalho – decente, justamente remunerado, com assento nos direitos fundamentais da pessoa humana. Quem trabalha com dignidade não precisa de deslocar as suas empresas para a Holanda ou o Luxemburgo, nem de recorrer a paraísos fiscais…


O trabalho é a condição básica e fundamental de toda a vida humana e do seu sucesso, podendo afirmar-se, sem afetar a verdade essencial das coisas, que foi o trabalho que fez, e faz, o próprio Homem. Dele se disse já, também, justamente, que é uma segunda criação, no seio da própria criação ou um fenómeno decisivo na elevação do homem acima da mera animalidade. O trabalho, nas palavras de Mazeaud, é o destino da condição humana, desde que o homem foi expulso do paraíso.


As crises só se vencem pelo trabalho. Sem trabalho, toda a vida apodrece. Mas, em trabalho sem alma, a vida sufoca e morre, conforme escreveu Albert Camus.


Deixemos, pois, a crise em paz e vamos ao trabalho que faz o Homem, mais do que o Homem o faz a ele.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O FUTURO COMEÇA HOJE

A crise que o mundo é uma crise da humanidade que não consegue humanizar-se.


Pouco sabemos, na verdade e com inteira verdade, sobre o que se passa neste mundo líquido em que se traduz o nosso tempo. A distância entre a consciencialização do sentido e significado dos sucessivos eventos e estes existe com crescente e dramática dimensão.


Só percebemos, geralmente, o que vai na espuma dos dias e, daí, a dificuldade em pensar para além do presente. Mas tal nunca foi, talvez, tão necessário como hoje.


Na verdade, interrogamo-nos sobre problemas ligados à saúde (taxas moderadoras, ou outros) e dos políticos e governantes vem uma resposta assente apenas na tabuada; queremos saber do abono de família ou da pensão social e lá vem outra vez a tabuada; os desempregados procuram trabalho e, de novo, a resposta vem da tabuada. E este rosário continuaria sem fim neste país exangue com um Estado a caminhar, a passos largos, para se tornar um Estado falhado e, muitos de nós, meros servos da finança e dos mercados financeiros.


Ninguém, na classe dirigente, política ou não, está a pensar e a decidir o que Portugal será daqui a 10, 20 ou 50 anos. Mas isso é absolutamente necessário se não aceitarmos que as forças do mercado assumam, no seu interesse, a soberania escassa que ainda temos. Se nada for idealizado, planeado, plantado, então é certo que o descalabro continuará até às cinzas e só restará, de um lado, a fortuna extrema de poucos e, do outro, a miséria total de quase todos.


É preciso começar a escrever a história do futuro.


Estamos a virar uma página da história e, porventura, sem disso termos consciência, a ser agentes de transformações socretais de onde há-de surgir uma nova sociedade. Mas o que vai mudando, por vezes sem o contextualizarmos, exprime-se e é marcado por sacrifícios, sofrimento e lágrimas morais e materiais. O tempo do fácil conforto, do consumo ilimitado, das ideias feitas, dos dogmas eternos, da certeza e segurança, de negócios fáceis, de trabalho garantido, de ociosidade paga já acabou e, provavelmente, não mais voltará. Não terá sentido, pois, mesmo neste contexto, que as nossas esperanças, dilaceradas pela dúvida, pelo individualismo e pelo negativismo, não busquem o conforto das grandes certezas.


A crise que o mundo – e não só o nosso país atravessa – é uma crise da humanidade que não consegue humanizar-se.


Apesar de tudo, actualmente, se resumir à tabuada – das imposições da “Troika” à insensibilidade humanista do governo – nós pudemos acender uma luz ao fundo de um túnel diferente, porém, daquele, vertical, para que certos políticos apontam e nos querem levar.


Já não basta, porém, denunciar. Agora é urgente enunciar e abrir outros caminhos, avançar por outros sítios.


Não vale a pena continuar a martelar-se que tudo é urgente. É preciso saber, já, começar e dar os primeiros passos no sentido de mudar de vida e criar um mundo diferente.


As possibilidades não se encontrarão quando todo o Estado estiver desmantelado, nas mãos dos privados, nacionais ou estrangeiros. Temos de encontrar políticos, governantes ou não, que saibam esclarecidamente que não há reformas políticas sem, antes, haver reforma do pensamento político. A tecnocracia é um conjunto de ferramentas que não vale nada, nem serve para nada se não for guiada pela ideologia, pelo pensamento político oportuno e sagaz.


A maior crise deste tempo é uma crise de pensamento e de valores com sentido para além da conjuntura actual.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

DESCULPEM

As crises deste tempo, nas suas múltiplas manifestações, pretendem, afinal proceder infamemente e sobretudo a uma outra distribuição de riqueza.

Não ignoro que já foi dito e redito que se propaga na Europa – e, em geral, no mundo, ainda que subrepticiamente – uma luta de criptopoderes, não eleitos, contra o ideal democrático e para benefício exclusivo de interesses financeiros e da nomenclatura que os sustenta e, por eles, é sustentada. Desculpem que insista no tema, pois.


A barbárie está às portas, porventura já instalada mesmo, na, dita, civilização ocidental e nem precisa de um qualquer “Cavalo de Tróia”. É olhar a História com olhos de ver e não focalizar a reflexão, apenas, no hiato dos últimos 50 anos… A União Europeia é já pasto de chamas e o fogo promete crescer.

Não é o momento, este, porém, de problematizar a natureza humana, ou seja, se a sociabilidade do Homem é uma tendência natural e originária ou decorrente da sua evolução. As respostas seriam várias mas, entre muitas, talvez mereça particular atenção, nestes tempos de crise, o pensamento de Hobbes: em estado de natureza o Homem é mau (homo himini lupus) e só a vida em sociedade pode remediar tal maldade natural. E, acrescento por minha conta e risco, a sociedade que destrói a família, que derruba as protecções de quem trabalha, que ignora a solidariedade, que idolatra o egoísmo e o individualismo, o consumismo e se mercantiliza até à exaustão e tudo submete ao livre jogo dos mercados, nunca poderá trazer ao Homem (e ele também a construiu) os instrumentos para remediar essa maldade.


É muito difícil ser um homem bom numa sociedade que é má.

As crises deste tempo, nas suas múltiplas manifestações, pretendem, afinal – porque provocadas pelos homens – proceder infamemente e sobretudo a uma outra distribuição de riqueza. Prova-o o facto, já incontornável, de, em países como Portugal, ser crescente a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres. E o mesmo se verifica por todo o mundo onde os Estados perdem a soberania e os cidadãos a dignidade.


Não sei onde vai parar esta sociedade de risco e que caminhos novos são possíveis através de uma mudança do actual paradigma. Já estou convencido, porém, que nada será amanhã como é hoje e que só os homens livres – da fome, da angústia, da doença, da ignorância e de tudo o mais que apouca a humanidade - poderão contribuir para que algo mude, sem que tudo fique na mesma.


Dito isto, pego no recente ataque de hackers, ou piratas informáticos, a computadores do Ministério da Administração Interna de que veio a resultar a divulgação no espaço público de dados pessoais de mais de uma centena de agentes de autoridade. É obvio que repudio tal acção contra o Estado e as causas mesquinhas que tal determinaram. Mas não quero ficar no espaço de conforto que habitualmente caracteriza os cobardes e, por isso, retiro aqui o que de bom pode ter uma má acção.


E se esses “técnicos” – porventura a sociedade civil em geral – se tivessem empenhado em interceptar os computadores dos Duartes Lima, Dias Loureiro, Oliveiras e Costa e tantos outros! quando eles, à custa de todos nós (então, hoje e no futuro), fizeram fortunas incompreensíveis, será que as coisas teriam chegado onde chegaram?


Não se trata de um convite a práticas ilegais, mesmo que seja para combater outras, ainda mais ilegais. Mas acredito que a nossa sociedade seria mais justa e solidária e a lei mais eficaz se fossem arrombadas as fronteiras de tantos segredos impostos por lei (sigilo bancário, fiscal, de justiça…) e todos pudéssemos saber como nascem e medram certas fortunas: de políticos, de empresários, de profissionais liberais, sei lá que mais.


A sociedade civil tem, neste âmbito, uma força de que não tem ainda consciência. E estou certo de que se não agir, não será pelos meios processuais comuns (civis ou criminais) que a corrupção acabará e a Justiça triunfará.


Infelizmente.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

QUANDO A CRISE SE AGUDIZA

Os portugueses têm de reagir, de se indignar, de encontrar soluções para sairmos deste inferno.

Até o sol benfazejo, neste tempo de angústias, nos doía. Agora que o clima certo voltou, há, porém, que aprender a viver sob um céu de chumbo em toda a complexidade que a imagem terá para cada um de nós.

Todo o mundo é feito de mudança. Por vezes, mesmo, por meios revolucionários. Alguém já pensou que é isso que poderá estar a gerar-se entre nós e na Europa?.

O medo voltou à cidade e, qual ave de rapina, despedaça-nos. Mas terá inevitavelmente que ir por aí o nosso futuro? Esta questão, que há muito atormenta os nossos espíritos, voltou, há dias, com intensidade a colocar-se-me quando soube que, no Luxemburgo, vai acabar, pura e simplesmente, a taxa moderadora (que é de 2,5 €) no Serviço Nacional de Saúde, bem como cessará uma taxa de crise em vigor desde há algum tempo…

Neste nosso cantinho o pensamento político parece ter parado no tempo e a sociedade civil algures em parte incerta. Os intelectuais, especialmente, parece que já se demitiram do seu dever cívico e, tirando os economistas, que estiveram no itinerário da crise desde o seu início, a acompanham com os mais anedóticos argumentos e nunca a saberão resolver – não tomam posição, não exprimem a sua indignação, não afirmaram um pensamento para sairmos desta situação grave em que nos encontramos.

Estão, nos seus castelos de marfim, a “ver a banda passar”, completamente divorciados da difícil vida dos portugueses e, a sociedade civil, nas suas múltiplas variedades, não parece, senão em pequenas franjas, ter ainda alento para reagir.

Ora o que está a acontecer exige a implicação profunda das elites e de todos os cidadãos, no pensamento e na acção. Às vezes até parece que nos meteram, como a um sapo se faz, numa caldeira de água fria que, a pouco e pouco vai avançando até ferver e, aí, já não há vida.

Os portugueses têm de reagir, de se indignar, de encontrar soluções para sairmos deste inferno. Hoje está tudo, de novo, em causa, não há direitos adquiridos, não há emprego para a vida, não há senão riscos em tudo o que somos e fazemos.

Revisite-se a história, do país e do mundo, sobretudo da Europa, e não nos iludamos por termos vivido sessenta anos recentes de paz. As raízes da guerra, porventura em outros moldes, não foram exterminadas e ninguém sabe quais são actualmente as ambições dos que, nesses tempos, as desencadearam. É que nem só com tanques se conquistam os povos e erigem impérios. Hoje é a finança gananciosa o outro nome das armas de destruição

Urgem análises globais e feitas de vários sítios, alguns, porventura, imprevistos para orientar o nosso destino comum. Para tal, é preciso começar por compreender que, além da crise económica, é todo um mundo que a nossos olhos se está a desagredar. Chegamos, com efeito, a um estado de fragilidade das instituições, das categorias sociais, das hierarquias vindas da velha sociedade industrial. O Estado age menos agora como um árbitro entre grupos de interesses do que como um regulador que defende a sua economia num âmbito de globalização financeira. Como escreveu Alain Touraine, (Après la crise, Paris: Seuil, 2010) a sociedade já não existe. O divórcio entre os actores e o sistema está mais do que nunca consumado. Este autor utiliza o termo de “situação pós-social” para designar tal situação que, na Europa, é emblemática. Tal expressão significa, nomeadamente que, se os actores sociais não desapareceram, deixaram o lugar a outros actores não sociais. O capital financeiro, sobretudo, separou a economia dos outros segmentos da vida social provocando a grande crise que estamos agora a viver. Sobre os fragmentos de um presente em plena decomposição, múltiplos factores nos puxam para duas direcções opostas, que indicam dois tipos de saídas possíveis da crise: de um lado, um reforço das desigualdades e da exclusão social; do outro, a criação de uma vida comum respeitadora da Terra e da subjectividade de cada um de nós.

Cada um de nós vai ter que escolher mais tarde ou mais cedo, o caminho.

Somos todos culpados e vítimas.