quarta-feira, 23 de março de 2011

PORTUGAL 2011

Não será o fim de Portugal que se avizinha em 2011, mas não será difícil diagnosticar também a falência cabal dos partidos no que toca às suas competências e funções numa sociedade democrática.

É por demais evidente que os partidos políticos agem, tácita e estrategicamente, neste tempo de crises, português, por razões que ignoram as suas ideologias (ou o pouco que delas resta) e o interesse nacional. Quem fixa a agenda política, ora o faz, de fato, por imposição externa (BCE, F.M.I., UE, agências de notação financeira), ou por razões internas decorrentes da avidez de conquistar o poder a qualquer preço. O mais são trapalhadas circenses e lavagem de roupa suja com o que nos vão tentando enganar e, sobretudo, anestesiar.

A situação externa, cujas consequências se abatem inequivocamente sobre o nosso país explica muito, mas não tudo o que vai acontecendo.

Os erros e indecisões do Governo, que são graves, também estão na origem de muito do mal estar vigente, mas não justificam, só por si, as crises.

O que os partidos visam, ontem como hoje, é, afinal, obsessivamente, manter o poder a qualquer preço, ou conquistá-lo sem olhar a meios. E assim vai, em declínio, este país. Até quando?

É, neste contexto, conveniente olhar com redobrada atenção as novas formas de contestação política, porventura insólitas, como aquela que reuniu, recentemente, a dita “Geração à rasca”. Nem partidária, nem contra os partidos, nem sindicalista nem doutrinária, não se erguia em volta dos chavões comuns às manifestações típicas do costume. Havia, ali, algo de inovador e, até, prometedor, sobretudo quando se tem presente o tipo de ações que os partidos – ou pretensos e pretensiosos líderes partidários – levam a cabo e que, afinal, não passam de procissões em que eles se alteiam no andor, mas, quanto ao regime, ao poder, à democracia, nem tocar-lhes. É que vivem deles e para eles e só por via deles, sendo que qualquer iniciativa “de fora” apenas lhes pode trazer incómodos e estragar a festança.

Não será, apesar de tudo o que está a acontecer, o fim de Portugal que se avizinha em 2011, mas não será difícil diagnosticar também a falência cabal dos partidos no que toca às suas competências e funções numa sociedade democrática. Estão, todos, corroídos pelo caruncho, em estado de apodrecimento acelerado, pouco mais significando já do que meras agências de emprego. E, com isto, vai-se degradando o ideal democrático enquanto, felizmente, começa a tomar feições o que alguns já têm designado por pós-democracia numa concetualização ainda, decerto, muito informe, mas já presente, também, em muitos espíritos.

Tenho por certo que é urgente uma profunda mudança qualitativa no país e a todos os níveis, mas começando pela organização do poder político e, sobretudo, no plano do sistema partidário.

Com governo ou sem ele, é inequívoco que a democracia em Portugal está em suspenso, em situação de grave indefinição, descaraterizada.

É certo que a democracia sempre se configurou como uma ideologia e um regime político de difícil apreensão e de contraditória aplicação em qualquer parte do mundo. Mas hoje, e entre nós, desceu a níveis de compreensão e de adesão muito perigosos. Bastará pensar no fato de uma maioria significativa de portugueses não participarem, sequer, nos atos eleitorais ou, participando, de formas diversas neles, manifestarem (por exemplo pela anulação do voto, ou pelo voto em branco) a sua repulsa – os que nem sequer vão às urnas, pelo regime, e, os outros, pelas escolhas que lhes são permitidas.

“Portugal 2011” poderá vir a marcar na história não só o fim dramático de um governo mas, o fim, também, de uma infeliz tradição democrática com quase duzentos anos durante os quais (incluídos os anos de ditadura) os cidadãos não foram titulares, senão formais, do direito de participação na organização democrática do Estado. Infeliz e inevitavelmente pela via, tipicamente nacional, do “desenrascanço” de uma recorrentemente “geração à rasca”. Desejavelmente pela implicação de elites que têm estado arredadas do poder hoje completamente capturado pelos partidos.

Todos querem a mudança, mas, poucos, os inerentes sacrifícios. E muitos, apenas, hoje, de novo, querem recuperar o seu lugar na pia.

quarta-feira, 16 de março de 2011

… E TODOS, TODOS SE VÃO!

Ver partir jovens cuja formação tanto custou ao país é penoso para além de hipotecar o nosso futuro coletivo.

“Há algo de profundamente errado na maneira como hoje vivemos” assim afirma, nas primeiras palavras do seu livro “Um Tratado sobre os nossos actuais descontentamentos”, Tony Judt. Qualquer um de nós poderá fazer a mesma constatação seja pela via da racionalidade, seja pelo simples olhar deste mundo cruel.

Não sei é se haverá alguém ou algum modo capaz de mudar essa maneira de estarmos no mundo, mas tenho fé.

No que a nós portugueses respeita, uma situação me ocorre ao espírito no contexto desta ideia de que é preciso mudar. É que, segundo dados oficiais divulgados por toda a comunicação social nos dias recentes, as exportações portuguesas aumentaram um pouco mais de 19% em janeiro – e esse é um caminho, dos poucos, que nos podem salvar da bancarrota. Só que, pelas mesmas vias, tomamos conhecimento, também, de que quatro diplomados saem do país em cada dia que passa. O risco eminente é o de nos tornarmos um país de restos. E depois?

Sem emigração os números do desemprego seriam ainda mais dramáticos do que os que temos, mas, ver partir jovens cuja formação tanto custou ao país é penoso para além de hipotecar o nosso futuro coletivo. E o mesmo se poderá dizer relativamente a trabalhadores a quem não é já a falta de emprego que empurra para fora do país, mas o fato de, entre nós, atingido um certo nível de evolução numa carreira, já não haver mais espaço para evoluir por falta de dimensão da economia para “aguentar” o seu potencial e a sua vontade de crescer profissionalmente. Aqui é óbvia, também, a incapacidade do mercado laboral português para absorver os mais qualificados e ambiciosos – no que se expressa, também, um destino trágico para o país.

A “fuga de cérebros” é, de resto, um problema tão relevante nestes tempos de crise quanto o é o desemprego e, quer por um lado, quer pelo outro, o futuro aparece pintado de cores muito negras.

Há, de fato, algo de profundamente errado, sem sentido, neste estado de coisas quando a “exportação” dos melhores de todos se torna uma realidade prosaica. Precisamos muito, é certo, de exportar bens e serviços, mas não podemos dar-nos ao luxo de “exportar” crescentemente trabalhadores qualificados e de alto potencial.

Vivemos angustiados com o défice das contas públicas e a dívida externa. Sem minimizar a sua relevância e nefastas consequências, creio que se tem cometido o erro de olhar menos ou com menor acuidade para os problemas da economia. Não sei se algum dia pagaremos aos nossos credores, em democracia, aquilo que já lhes devemos e o muito mais que aí virá. Mas sei que se não produzirmos mais e melhor, num mundo globalizado, não deixaremos de nos tornar insignificantes como nação.

Urgem políticas económicas novas, ousadas, viradas para o mundo dos negócios, para as PME e todas as empresas exportadoras. Só assim combateremos o desemprego e afastaremos a sangria que é a “fuga de cérebros” do nosso país. Não é sustentável agir apenas na frente das finanças públicas e ignorar tudo o mais – e, aqui, acrescento aquele mínimo de proteção social sem o qual a vida se torna vegetativa, um arremedo de existência digna.

Vai valer a pena acompanhar o esforço do povo japonês na resposta que darão às gravíssimas calamidades que o têm quase destroçado. É que eles sabem – e nós também – que é possível sair dos desastres e voltar à vida, à dignidade, ao bem estar. Mas os sacrifícios, porventura angustiantes, são caminho, sem alternativa, para aí chegar.

A crise que hoje nos corrói é, sobretudo, política e só pela via política poderá ser ultrapassada. Mas não é com fantochadas como as que os políticos dos partidos nos têm brindado nos últimos dias que sobreviveremos.

É melhor olhar Portugal nos olhos e deixar de contemplar o próprio umbigo.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A ALIANÇA DE FAUSTO COM MEFISTÓFELES

À nossa volta o mundo mudou e uma nova carta de ideias surgiu, embora poucos disso se tenham dado conta.

Terá dito recentemente um político que “anda por aí” (nas suas próprias, lúcidas, palavras) que o PSD precisa de um líder que tenha um perfil de gestor, austero, frontal e rigoroso. E, logo a seguir, nomeava o seu preferido…

Dei por mim a pensar logo num computador a governar o país! Mas veio-me também ao espírito o mito, muito acalentado pelo povo alemão, em que, por um estranho pacto, o Dr. Fausto entregou a Mefistófeles a alma em troca de conhecimentos ilimitados e de muitos prazeres terrenos. E, depois, foi o que se sabe.

Há uma realidade insofismável no tempo presente e que se traduz em que o país está, aos poucos, a cair em si e a tomar consciência do que não pode gastar o que não produz, nem, sequer, amealhou. Que tem de cortar em gastos supérfluos e, porventura, noutros mais. Que tem de produzir mais e conviver com sacrifícios ainda incalculáveis e insuspeitos, até.

Mas Portugal tem de encontrar e definir o seu destino, mais do que andar às cegas, por aí, à procura de um homem providencial ou, passivamente, aceitando alguém que se lhe venda como tal.

Não sabemos valorizar as elites – que as temos – por um sentimento de inveja que desgraçadamente nos persegue, e, sem elas, porém, não sairemos do marasmo atual. Estamos, todavia, abertos ao marketing de pretensos salvadores que, além da sua “astúcia” não dominam as variáveis mais rudimentares da ciência ou da arte política.

Ora isto expressa um lamentável estado infantil da nossa democracia.

À nossa volta o mundo mudou e uma nova carta de ideias surgiu, embora poucos disso se tenham dado conta. O estruturalismo, o freudismo, o marxismo e os seus grandes pensadores (Roland Barthes, Lacan, Foucault, Althusser, entre outros) deixaram de pontificar na compreensão do homem e da vida e as suas ideias deram lugar a novas, outras, mais reflexões e a diferentes pontos de vista, ainda que seja inexato falar, a propósito, num antes e num depois nesse caos organizado que são as ideias humanas. Algumas palavras chave: globalização, neoliberalismo, bioética, sociedade em rede, China, crise… vieram ocupar o lugar de outras em torno das quais circulava o pensamento ou, pelo menos, vieram alterar os dados das equações reflexivas. Acumulamos ideias, teorias, paradigmas numa destruição criativa porventura jamais vista. Todavia estamos cada vez mais desamparados, assustados, sem norte, num redemoinho de informação que nos trará todos os prazeres e os mais amplos conhecimentos, tanto quanto mais angústias e dramas.

É inquestionável que estamos num momento de mudança de uma era para outra. O século XX já vai longe e novas formas de pensar estão aí.

Ora é aqui que, em geral, nós, portugueses não mudamos nada, não ousamos, sequer, escrutinar o horizonte mas, como sofredores, vivenciamos as ordens que nos vem de fora, sem independência nem autonomia.

Às vezes parece que só o bem estar material conta e que, fora dele, nada mais existe. Nada mais falso, porém.

Temos de pensar o nosso destino, no sentido do que queremos atingir e não do fatalismo habitual. Não pode haver razão sem emoção (António Damásio) e jamais um computador nos poderá guiar às melhores escolhas de vida, sem prejuízo, decerto, de que rigor, austeridade e frontalidade são valores de qualquer civilização que se preze. Só que o Homem não poderá, jamais ser recondutível a uma máquina, por mais perfeita que esta seja!

Ora há por aí muita gente desnorteada a ver a vida a preto e branco tal como se nela apenas valessem os seus próprios interesses e não o interesse coletivo, este impossível de aprisionar num qualquer software de um predestinado homem-máquina.

A política é, também, paixão e, sobretudo, amor ao próximo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

TENHO MEDO…

Hoje o sentimento mais generalizado entre nós é o que exprimo assim:
“Tenho medo de ter fome”.


A atualidade pode – e tem sido caraterizada – como afundada numa “sociedade de risco”, no que vai a ideia de que já nada está garantido, nem é seguro. A este propósito refere-se Ulrich Beck à “La irresponsabilidad organizada” (http://inicia.es/de/cgarciam/Beck01.htm) em artigo recente e, em geral, em toda a sua opulenta obra, sobretudo a partir dos anos oitenta do passado século.
Se assim for, não alcançaremos, decerto, lenitivo para o que vivemos mas, porventura, uma melhor compreensão do quotidiano neste nosso país cada vez mais na periferia de tudo.

As notícias que chegam em catadupa da “frente” não são, obviamente, boas e não se antevé um destino para o futuro, ao menos comandado por nós, portugueses.

Lá fora, andamos, andrajosos, a fazer figura de mendigos em busca de mais uns milhões para enganar a nossa crónica doença. E aí vale tudo: do pior ditador ao mais perigoso amigo, tudo o que vier à rede é peixe. Assim, ajoelhar perante a Sr.ª Merkel é, até, dos atos menos indignos patrioticamente, pois bem sabemos que, também, outros, da UE lhe estendem recorrentemente a mão, atenta e obrigada… até à próxima calamidade. (Como é curta a memória dos povos!)

Cá dentro, já há muito que afivelamos o traje de serviçais e de mordomos ao serviço de qualquer turista de pé descalço ou de anafado pseudo investidor ou comprador dos nossos parcos e últimos anéis. Somos já pouco mais do que uns trintanários do século XXI e, com a crescente emigração da juventude mais preparada para outras paragens, é fácil de prever o que nos espera daqui a uns anos.

Mas voltamos à insegurança.

Ao nosso redor vemos abaterem-se símbolos culturais que marcaram a identidade do país e regredir um Estado Social que, construído a golpes de bravura, pouco mais tem do que trinta anos, enquanto os poderes ora usam (e abusam) dos seus poderes, ora evidenciam a mais dramática impotência para alterar o estado da crise pública e o itinerário para a fatalidade.

Os medos que nos assolam crescem todos os dias. O medo de perder o emprego, de cair na valeta da sociedade por falta de apoios sociais públicos cada vez mais rarafeitos, de perder a saúde e não ter o necessário apoio de um sistema de saúde, de envelhecer e ser arrumado num qualquer “armazém” de idosos até apodrecer – e tantos outros. Estes são medos nossos, que estão ao nosso lado quotidianamente, e não aqueloutros que afetam toda a humanidade, como o terrorismo.

Não longe, na história, gritava-se “Tenho fome”. Era o tempo da proletarização de massas imensas de trabalhadores explorados por um patronato esclavagista e sem ética, pois. Hoje, sem que se tenha arredado, de vez, a fome e a miséria do nosso mundo global, ou local, o grito mais lancinante, porventura surdo, é outro: “Tenho medo”. Ou, então, aproximando, com muita verdade, creio, tais momentos, hoje o sentimento mais generalizado entre nós é o que exprimo assim: “Tenho medo de ter fome”.

Caminhamos para uma verdadeira “economia de guerra” apesar dos boatos que alguns pardais lançam do cimo da sua prepotência. O novo sistema político, judicial, de saúde, de educação, tanto quanto a economia e as finanças, públicas e privadas, ainda vivem na ilusão de um certo Estado-providência – a expressão patológica do Estado Social. O que se considera politicamente correto é afastar a hipótese de catástrofe, mas o que mandaria o bom senso seria preparar os portugueses para vencer a crise com instrumentos culturais e políticos novos.

A insegurança é o outro nome da atual democracia, designadamente.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

NO ANO EUROPEU DO VOLUNTARISMO E DA CIDADANIA


A ideia de liberdade passa pela dessacralização do que dizem pretensos gurus, intelectuais encartados, comentadores e analistas tipo “gato escondido com rabo de fora”.

Não poderia deixar de expressar sincero regozijo face ao teor de um breve artigo que li, recentemente, da autoria de Paulo Baldaia, diretor da TSF: “(…) Sou jornalista e ponho o dedo na ferida. Não existem poderes sacrossantos, não acreditem em tudo o que vêem, lêem ou ouvem. Os jornalistas são seres humanos que erram, que vivem de ser contrapoder e que, na sua missão, cometem excessos de voluntarismo (…)”. Atrevo-me a acrescentar ao elenco, por maioria de razão, os comentadores políticos, os analistas e, em geral, os designados “opinion makers” e, no mais, quase me apetecia ficar por aqui. É que, pensando o mesmo – e tendo-o declarado, por vezes com indignação, em vários escritos – aquela reflexão vale pelo que diz, mas mais ainda, vinda da pessoa que vem. Deveria, mesmo, ser aposta à entrada do “livro de estilo” que alguns órgãos de comunicação social já têm, e a maioria, convenientemente, não, como seria de colocar no frontispício dos livros de leitura primária.

A ideia de liberdade passa por aqui – pela dessacralização do que dizem pretensos gurus, intelectuais encartados, comentadores e analistas tipo “gato escondido com rabo de fora”. Passa pelo exercício do poder de cada cidadão pensar por si, ler mais e ouvir outras opiniões antes de julgar ou de ter opinião. E esta tarefa é tão mais urgente e importante quanto é inegável que na vida político-partidária, perante o fanatismo em que esta se esvai, não conhecemos, senão o preto e o branco: se um diz algo, é imperativo que o outro diga, logo, o seu contrário mesmo que com argumentos redondos e, muitas vezes, patéticos.

Hoje, como sempre, (John Stuart, Mill y la democracia del siglo XXI, ed. Joseja Dolores Ruiz Resa) alguns dos graves problemas que enfrentamos passam pela tensão entre elites (falsas, muitas vezes) e a generalidade dos cidadãos, pela perversão do interesse geral face a interesses pessoais e egoísmos sinistros, pela marginalização política dos que não querem ir em manada, pela manipulação descarada da opinião pública e males idênticos.

A solução exige que se seja livre e se afirme em todas as circunstâncias tal liberdade.

Neste ano de 2011, que a Comissão Europeia declarou o Ano Europeu do Voluntariado e da Cidadania, interpela-nos o desafio de “dar tempo a quem precisa, a troco de nada” que constitui, afinal, a essência ou espírito do voluntariado.

Somos demasiado passivos apesar dos riscos e dos perigos que nos cercam, talvez na ideia, insensata, de que lhes escaparemos sempre pois os conflitos e os problemas só acontecerão aos outros. É, assim, este “Portugal sentado” que é urgente abanar, acordar e incitar a voluntarizar-se para a reflexão tanto quanto para a ação. Se é certo que nunca, como hoje, foi possível estar em contato com tanta gente e recolher tanta informação, o certo é que é a solidão que impera. Através da internet e das ferramentas nela disponíveis, tanto quanto da televisão e outros meios de comunicação que as novas tecnologias disponibilizam, vamos onde queremos e contatamos quem queremos, mas desprezamos, muitas vezes, o calor de uma boa tertúlia, um diálogo de olhos nos olhos, numa boa polémica com os amigos que estão ao nosso lado. O mundo moderno trouxe-nos conquistas formidáveis, decerto, mas, também, delicados bloqueios à nossa humanidade. Pode-se nasce in vitro e é comum morrer-se in maquina, tal como passar a vida na clausura de um ecrã solitariamente. O apelo da cidadania vai noutro sentido, rejeita o individuocentrismo e o egoísmo e reclama a partilha.

É por isso que se impõe sair do casulo e frequentar – partilhar – um bom debate público, opinando e, até, mostrando indignação e revolta aos que estão ao nosso lado, em vez de consumir passivamente os “enlatados” que andam por aí à venda.

Tal exige um grande esforço cívico, uma forte luta contra o comodismo, uma vontade firme de “ser com os outros” em reflexividade permanente.

O mau uso de tanta e tão diversificada “tecnologia da solidão” vai acabar por matar a nossa humanidade se não arrepiarmos caminho.

E mais cedo do que muitos pensam.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

É ALGO EXAGERADA A NOTÍCIA DA MORTE DO GOVERNO

Uma crise política seria o acontecimento político que menos poderia interessar a Portugal neste momento em que tantos cidadãos já sofrem no quotidiano os efeitos de todas as crises.

É simplória e, até, néscia além de, seguramente, interesseira, a ideia que anda a correr, também nalguns recantos da comunicação social, de que o único desígnio das políticas do Governo é a sobrevivência de Sócrates no poder.

Não é que este não lhe esteja agarrado como uma lapa, mas é sinal de despeito, arrogância e ignorância mesmo levar tudo o que acontece à conta dessa alegada pretensão. O fenómeno político em causa é bem mais vasto e mais profundo, arrasta consigo implicações profundas, tendo a ver com o sistema político e seus figurantes considerados globalmente.

De resto, também, a opinião simétrica de que a Oposição tem como único desígnio derrubar o Governo igualmente padece de críticas, seguramente. Não se poderá acreditar que, com efeito, o único intento dos políticos seja o “jogo das cadeiras”. Por mais desqualificados que estejam perante a opinião pública, os políticos deste regime que nos controla – e estão, geralmente – não serão de aceitar aquelas premissas para, daí, tirar qualquer conclusão que seria, sempre, parcial e de nenhumas consequências práticas.

Infelizmente, da vida pública a maioria dos cidadãos só conhece – quando conhece! – algumas declarações bombásticas que os diversos media trazem regularmente ao espaço público e que, depois, são glosadas em conversas e tertúlias, pouco mais que de barbearia, sem as escalpelizar, criticar, ou apurar o seu fundamento. Em regra é o mero fanatismo partidário que traça o itinerário dos “slogans” postos a circular no dia-a-dia do negócio, endogámico, que a comunicação social (e certos gurus que ela apadrinha) e os partidos desenvolvem no seu interesse próprio mais do que no interesse público.

A anunciada morte do Governo, que foi decretada por um douto comentador político em momento de alguma excitação, insere-se no paradigma dos “boatos” acima referido. Se não morreu o Governo, há-de, porém, repetir-se tantas vezes essa declamação, que, ao menos até à próxima declaração popularucha, vai ser objeto de conversa fiada e de prazer para alguns…
Uma crise política seria, creio, o acontecimento político que menos poderia interessar a Portugal neste momento em que tantos cidadãos já sofrem no quotidiano os efeitos de todas as crises. Apelar à sensatez de quem vive dos jogos políticos – e, por aí, não vive sem escândalos e sensacionalismo – poderá ser inútil porque faz parte, este perfil, da sua natureza. Mas terá de haver um mínimo de bom senso e de patriotismo, também, no marketing político-partidário que enche a cena da nossa vida pública.
E nisto não deixará de ir uma avaliação sobre o Governo, que aparece, claramente, como fatigado e a perder a ambição. Mas vai mais do que isso, ou seja, vai também a pergunta necessária e óbvia: e depois da queda deste Governo?

Há que ter muito cuidado com o desregramento verbal quando envolve, sobretudo, aquele veneno que cativa o público, mas não tem em conta o interesse público.

Vivemos numa sociedade de risco e de perigos.

Antes, nas sociedades industrializadas, era comum e compreensível o grito “tenho fome”; hoje, na sociedade de risco que é a nossa, o grito é outro: “tenho medo” (ainda que não tenha acabado a fome…). Ora o medo convertido em instrumento político, ou da política, é deveras preocupante.
A irresponsabilidade organizada (Ulrich Beck) contém ameaças gravíssimas ao nosso tempo e cria um certo “reino de sombras” com deuses e demónios que ameaçam a própria sobrevivência democrática.

À liberdade de opinião vai faltando a criatividade que é necessária a uma sociedade diferente e melhor. Que há muita coisa que está mal todos os sabemos; dizer como mudar é que seria útil. Dizê-lo com realismo, convicção e saber.

Mas isto não vende.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

NEM TUDO O QUE PARECE É…

O otimismo panglóssico que se pretende alimentar é, não raras vezes, uma falsa esperança que o destino se encarregará de punir.

A autoflagelação é algo a que muitos se dedicam em momentos de crise como aqueles que iniludivelmente vivemos no presente, tanto quanto o optimismo é o lenitivo de outros. Porventura nem uns, nem outros, terão toda a razão num mundo que vai muito mal, mas que não consente que se perca o realismo da esperança.

Implica esta postura que se dê atenção redobrada a antinomias, umas reais outras aparentes, que circulam no espaço público apoiadas em opiniões de ilustres politólogos, comentadores ou cronistas que nem se auto-regulam nem são, muitas vezes, confrontados com as suas desqualificadas narrativas por quem deve e pode esclarecer os mais variados fenómenos da vida pública. Andamos, por isso, a comer gato por lebre quando não olhamos todo o horizonte das notícias e comentários que os vários interesses nos procuram vender como verdades absolutas mas que são, afinal, apenas parte da verdade que é, afinal, a soma de todas as verdades (Levinas).

Sublinho, aqui, por um lado, o discurso oficial que tem sido adotado pelo Governo na pretensa defesa do Estado social – ou da sua patologia, o Estado providência – e a realidade quotidianamente vivida a qual evidencia um certo adeus ao Estado social (João Carlos Loureiro, Adeus ao Estado Social?). Se é inegável que se defende, à esquerda, o Estado social: o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública, a Segurança Social pública, não é menos verdade que, alegadas razões de consolidação do orçamento e de redução da dívida pública, têm determinado cortes profundos no perímetro dos direitos sociais alegadamente conquistados e pretensamente território intangível.

Invoco, por outro lado, a proclamada exigência do maior partido da oposição relativamente ao cumprimento pelo Governo do Orçamento de Estado e acordos com este confluentes entretanto celebrados como condição sine qua non para a subsistência desse mesmo Governo. Tudo parece bater certo, mas a verdade é que, atrás da exigência, no essencial correta, de cumprimento dessas normas financeiras, aparece, mais ou menos disfarçada, a vontade de que o Governo falhe, depressa e inapelavelmente, a execução do orçamento, com o que se abriria a porta a uma potencial alternativa de governação.

Tudo isto soa a falso.

O pessimismo da direita, muito conveniente, cai bem num largo setor da sociedade onde campeia, há muito, uma potente revolta face à perda de direitos, de regalias e de privilégios. Mas, só por si, não leva a lado nenhum.

O otimismo da esquerda, enraizado em “amanhãs que cantam” e em muito irrealismo, vai decepando alegremente – proclamando embora o contrário – o Estado social que a Constituição consagra mas que, em larga medida, tem pés de barro e é, por isso, insustentável. O otimismo panglóssico que se pretende alimentar é, não raras vezes, uma falsa esperança que o destino se encarregará de punir. Por si só também não leva a lado nenhum.
A vida não está fácil.

Não é uma mera moda do topos discursivo dizer-se que nos encontramos numa sociedade de risco, de medo.

Como vencer o medo e as suas causas e ultrapassar os riscos e as suas consequências neste imbróglio de posições, situações e interesses? São, estas, questões de grande atualidade e que sobrelevam as meras opiniões de café a que vamos estando condenados.

Todos querem “sol na eira e chuva no nabal”, mas é sabida a improbabilidade de o conseguir. É certo, porém, que terá de se encontrar uma saída para o caos atual. As palavras tem de ganhar sentido, as opiniões fundamentação, as escolhas assentar em estudo sério e aprofundado, o futuro tem de ter um sentido.

Nada é certo nem definitivo.

Nada está garantido.