segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A VERDADE É QUE ALGUÉM TEM DE SOFRER


Alguém tem de sofrer. Nada melhor, então, do que os que sempre sofreram. Até porque já estão habituados.

Vou reproduzir, com a devida vénia, uns parágrafos de um livro luminoso (que ilumina) de Rui Zink e que se chama “A instalação do medo”. Vem na página 124 (1ª ed. outubro 2012): “Era uma vez um rico cujo amigo pobre passava a vida a sarraziná-lo por causa da sua fortuna, até que um dia o rico se fartou e disse: olha lá, se dividíssemos a minha fortuna entre a população inteira do país, quanto achas que dava a cada um? O amigo pobre não queria responder, só que o rico insistiu. E lá acabou por dizer: sei lá, cinco ou dez patacas.

Então o rico foi ao porta moedas e tirou dez patacas. “Olha, aqui está a tua parte. Agora não me chateies mais”.

Neste espírito – estou convencido – vivem muitos neste tempo de austeridade. Uns, resignados, escondem da sociedade as suas dificuldades. Outros, indignados, gritam a sua revolta. Todos estão insatisfeitos.

Nem na pobreza há consensos!

Nem na riqueza há lucidez!

O tempo presente não tem ideais. Não tem líderes, nem homens de Estado. Tudo são loucuras vulgares de gente vulgar. Vivemos as nossas vidas como “vidas instantâneas” sem estratégias de futuro. A política é apenas a “arte de furtar” muito e depressa num tempo de pensamento líquido. Até a vida é furtada à nossa vida.

A “arte da fuga” vai a par com a de furtar. Ninguém é responsável por nada – salvo os que sofrem o castigo da Troika, esses irresponsáveis que andaram a gastar mais do que podiam. Os políticos, do governo ou da oposição, não assumem qualquer responsabilidade social passada, presente ou futura. A culpa morre sempre solteira.

Alguém tem de sofrer. Nada melhor, então, do que os que sempre sofreram. Até porque já estão habituados.

A política do medo tornou-se, por isso, numa forma dominante de governar levando ao descomprometimento com quaisquer valores. Quem se move e age mais rapidamente domina e quem não pode mover-se tão rapidamente é escravizado.

As notícias que chegam do futuro deixam-nos arrepiados. Não há túnel, quanto mais uma luz ao fundo do túnel! O mercado – os mercados – parece terem ganho a batalha. Nada mais conta na era em que entramos. À nossa frente parece haver apenas deserto onde todos os caminhos estão em permanente liquefação.

Não somos donos do presente quando a democracia jaz e apodrece pelo mundo ocidental fora. E não seremos senhores do futuro sem o poder económico e o poder social que já escaparam às mãos dos políticos gasosos que nos capturaram. A inexplicabilidade do presente e a inatingibilidade do futuro é tudo quanto têm para dar à sociedade. Entretanto dizem governar a bem do interesse nacional e para criar condições futuras de bem estar.

Alguém tem de sofrer. Terá mesmo? E se esse sofrimento fosse partilhado por todos e, em vez de levar – como está a levar – à implosão da sociedade, visasse a promulgação de uma ordem nova e melhor?

O maior problema da Europa (e de Portugal) é que não tem voz no mundo atual. Está entregue a uma geração que nasceu e sempre viveu sem esforço num mundo dominado pela ficção científica. Deles só há que esperar, um dia destes, que entoem o de profundis e regressem aos seus lugares de conforto. Afinal não foi assim que fizeram os seus maiores e sem que, em geral, algo de mal lhes tenha acontecido?

Eu recuso as dez patacas.

E vou continuar a chatear.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

JAIME NEVES



Jaime Neves simboliza a recuperação, perante o declínio iminente, do espírito de Abril. E assim será visto para sempre.

 Nunca o conheci pessoalmente, mas Jaime Neves faz parte da minha família emocional.

A Revolução de Abril encontrou-me em Coimbra a estudar Direito. Atraído pelo idealismo das novas ideias democráticas, deixei o mais para trás na convição de que não poderia ficar indiferente aos novos horizontes que se abriam à minha geração.

Convivi, então, com personalidades inesquecíveis – tantas já cá não estão! – de profundidade intelectual e ideológica a toda a prova, de coragem indomável, de amor à Pátria e dedicação integral ao bem público. De todos os partidos, sublinho.

Vivi, também, as atribuições da construção da democracia de que guardo sobretudo na memória o período que se iniciou no 11 de março de 1975 e só acalmou em 25 de novembro seguinte.

Não cabe aqui recordar os meandros desse processo, dos combates travados, dos perigos e riscos que se correram. Sobretudo não quero lembrar os oportunistas, sem coluna vertebral, que da extrema esquerda fascista vieram, depois, a instalar-se nos galhos do poder através do PS, do CDS e, sobretudo, do PSD de Cavaco Silva. A história desses humunculos – ainda andam alguns por aí – é tão vil que alicerça a ideia hobbesiana do “homem lobo do homem”.

É um aceno de gratidão que me move neste escrito em memória de Jaime Neves. Não duvido que a ele – e aos que então o acompanharam – devemos muito do que viemos a ser no novo contexto de relações sociais e políticas decorrentes da sua intervenção em novembro de 75. No meu imaginário a sua ação está gravada enquanto líder e obreiro de um mundo sonhado em abril de 74 e, pouco a pouco, depois, tornado pesadelo. Jaime Neves simboliza a recuperação, perante o declínio iminente, do espírito de Abril. E assim será visto para sempre.

Vivemos num tempo manhoso, imbecil, pródigo em egoísmo quase quarenta anos depois da manhã de esperança que nasceu em Abril de 74. Da profunda incompetência política e, pior, de oportunismo político, do “salve-se quem puder”, de captura da nossa vida societal pelos partidos políticos – o maior cancro da nossa democracia, mas sem os quais, paradoxalmente, não há democracia…

Desconstruíram-se as grandes categorias do pensamento, generalizou-se o precário, vive-se no reino perverso do efémero, do transitório, da mera glorificação do instante. Tempo do pensamento fácil e débil. De cobardia moral e física, onde a liquidificação dos valores destroi o nosso modo de vida.

Homens como Jaime Neves – e alguns, não muitos, mais – terão de continuar presentes no nosso espírito para dar alento às lutas que o presente reclama de nós. Lutar contra a nossa mediocridade, a nossa falta de coragem, o nosso modo de adiar a verdade e a incapacidade de inventar outros possíveis.

Admitimos, sem transigir, que Jaime Neves possa, até, ter estado do lado errado da história. Mas, mesmo que assim tivesse sido – e não foi – ele é um Homem, em toda a dimensão da palavra e em toda a dignidade da espécie. Um homem a lembrar sempre que o taticismo de interesses mesquinhos comanda a vida.

É, disse. Porque no nosso imaginário coletivo, mais ou menos sebastianista, os valores que foram os seus – liberdade, igualdade, fraternidade – ou voltarão a ser os nossos ou não seremos mais dignos do nosso passado democrático tão curto ainda.

A coragem conduz-nos até ao intemporal. O medo, à morte.

Até sempre General!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

CRÓNICA BREVE DE UM ENCONTRO FORTUITO



O mundo em que vivemos despreza a honestidade, castiga o trabalho, recompensa 
a falta de escrúpulos, alimenta o canibalismo.


Cumpre esclarecer, antes de mais, que esse encontro … foram, afinal, dois – melhor, dois em um - embora os meus interlocutores usem o mesmo apelido, Espírito Santo.

Um encontrei-o encafuado entre uns cobertores imundos, deitado na escadaria do meu prédio, entre garrafas desabitadas já de qualquer esperança. Uma côdea de pão, rapada, foi o que me levou à conversa. “Tem fome?”. O outro, entrou-me pela casa dentro – aliás é habitual frequentador da minha intimidade – através das ondas anestesiantes das televisões. Não me deixou falar e debitou palavras, palavras e mais palavras em resposta a pergunta nenhuma. “Porque não se cala?” (era a pergunta que queria fazer-lhe mesmo arriscando o meu futuro).

O Espírito Santo que, julguei eu, teria fome e frio, contou-me, (faltavam-lhe na boca tantos dentes que tive que adivinhar restos de muitas frases) que vivia na rua há anos entre muitas pernoitas nas cadeias construídas – como é que ele o sabia? – com os dinheiros de um outro Espírito Santo que ele, porém, não sabia quem era. Eu que perguntasse, porque toda a gente o conhecia…

Dois homens, duas vidas, a desigualdade absoluta. Portugal 2013.

O mundo está virado de pernas para o ar, conclui ao pensar nestes encontros fortuitos. Lembrei-me, então, de Galeano e do seu famoso livro “Patas Arriba, La Escuela del Mundo al Revés” onde constata o que cada um de nós também poderia dizer: o mundo em que vivemos despreza a honestidade, castiga o trabalho, recompensa a falta de escrúpulos, alimenta o canibalismo. “Cuando un delicuente mata por alguna deuda impaga, la ejecución se llama ajuste de cuentas; y se llama plan de ajuste la ejecución de un país endeudado, cuando la tecnocracia internacional decide liquidarlo. (…) La economía mundial es la más eficiente expresión del crimen organizado. Los organismos internacionales que controlan la moneda, el comercio y el crédito pratican el terrorismo contra los países pobres, y contra los pobres de todos los países, con una frialdad profesional y una impunidad que humillan al mejor de los tirabombas.” (ob. cit., 7ª ed., p. 13-15).

Não tenho soluções na manga para sugerir, mas sei, profundamente sei, que assim não podemos seguir. O lixo e o luxo não podem coabitar mais rasgando o essencial da condição humana.

O capitalismo financeiro, por vezes virtual, é “o que está a dar”. Leva à constituição de fortunas infinitas e, ao mesmo tempo, entope as valetas por onde corre a miséria humana. Era conveniente que alguns senhores do mundo tivessem mais cuidado na destruição física, social e psicológica a que estão a levar muitos, quase todos. E que os da política se desamarrassem dos cadeados da economia e da finança que os tolhe… e de que, por vezes, sobrevivem hipocritamente, até.

Acompanhei, também profissionalmente como advogado, o caso BPN e não tenho dúvidas em considerar que ele é a expressão do crime financeiro organizado e apadrinhado politicamente. Para além de saber que, dos rendimentos que tiro do meu esforço diário de 12 ou mais horas de trabalho (muitas vezes sem conhecer o que é um sábado ou um domingo) o Estado me expropria escandalosamente uma parte substancial para dar aos que foram do BPN nada mais sei dos processos em curso. E adivinho que ninguém, jamais, saberá.

Entretanto os ilustres “engenheiros financeiros” que armaram a roubalheira continuam o seu caminho, cada vez mais poderosos e até famosos. E, porventura, já a preparar o próximo assalto.

Resta-me, neste resumo dos encontros com os Espírito Santo, que, afinal, foi tão breve que nunca mais terminará, perguntar, com o maior ingenuidade: porque não desconsiderar a personalidade jurídica do BPN (o real) e ir à personalidade “financeira” (às contas na Suíça, p. ex.) dos principias accionistas e clientes desse banco?

Alguém me pode responder?


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

REFUNDAR O ESTADO, OU RENOVAR PORTUGAL?


Sempre houve e haverá alternativas quando os homens sonham.
É preciso é não lhes matar o direito de sonhar.

 Neste início de um novo ano, aliás em sequência da tentativa de avaliação feita ao de 2012, interrogo-me, crescentemente impaciente, sobre o presente e o futuro deste país onde vivemos ou apenas já sobrevivemos. E não é só a austeridade que justifica tanta apreensão é, sobretudo, o catastrofismo obscurantista que alguns espalham pela opinião pública num tempo de irracionalidades sobrepostas e interpostas e de incompetência generalizada.

Não se pode ignorar que hoje nos aprisionam a vida numa profunda transformação do mundo onde quase tudo à nossa volta está em processo de desconstrução e desintegração com foros de gravidade e amplitude dramáticos para quase todos. A crise que varre o Ocidente é particularmente sentida neste canto da Europa – é assim que certos poderes não eleitos nos consideram! – e significa crescentes desigualdades sociais, pobreza sem fim e exclusão social acelerada. Não há direitos sociais que resistam já à fúria destruidora do papel do Estado social que nos querem, agora, impor os da grande finança.

O nosso fado chama-se hoje crise num tempo em que a inteligência da vivência humana cada vez se aprofunda mais. A revolta, o medo e a deceção estão presentes no ar que respiramos e sopram já ventos, vindos da profunda regressão da economia, que prenunciam o fim das liberdades políticas. Como referem Nicolas Berger e Nathan Gaudes habituamo-nos a viver em “democracias de consumo” onde não há lugar à preparação de qualquer futuro.

Assim não vamos, porém, a lado nenhum.

A austeridade pela austeridade, de que tanto gostam alguns austeristaristas de serviço, é uma  armadilha dos homens contra o Homem. Mas que precisamos de uma extensa e profunda revisão de comportamentos e, sobretudo crenças (p. ex.: tudo é possível, não há limites para o consumo, o Estado tem de dar tudo, etc.) é uma realidade. Chamemos-lhe metanóia e sigamos essa purificação interior dos maus hábitos de um passado ilusório.
Só que a austeridade sem esperança é gaita que não assobia.

Porque é que temos de empobrecer como expressa ou implicitamente nos impõem os do Terreiro do Paço?

Não há alternativa?

Sempre houve e haverá alternativas quando os homens sonham. É preciso é não lhes matar o direito de sonhar.

Os portugueses não estão condenados à miséria e podem sair do atoleiro em que o país se encontra se for esse o seu desejo. É certo que “um fraco rei, faz fraca a forte gente” mas nós somos maiores que esses austeritários que nos governam sem qualquer ideia que vá além da tabuada.

Temos que trabalhar , produzir e viver.

Trabalhar com inteligência para sermos competitivos num mundo global que aí está. Produzir para partilhar, em solidariedade com os outros portugueses e vender fora, competitivamente, tudo o mais. Viver para além do trabalho porque o homem não foi feito para o trabalho mas o trabalho para o homem. Para o realizar e emancipar.

Quando tantos portugueses abandonam o país em busca de segurança, estabilidade e conforto, será que os que cá vamos ficando não seremos capazes de mudar a tendência confrangedora deste tempo ingrato?

Se quisermos, somos. A condição essencial para isso, contudo, parece ser hoje, mais que nunca, mudar de “rei”, mudar o Terreiro do Paço para o país real, desligar da comunicação social oportunista que temos, e meter mãos à obra para refundar Portugal.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

UE: ENTRE A REFUNDAÇÃO E O PRINCÍPIO DO FIM


A Europa está a ser germanizada. O prémio Nobel da Paz não poderia, jamais,gratificar esse trágico itinerário.

Entre inúmeras críticas, algumas delas profundamente depreciativas, a União Europeia recebeu o prémio Nobel da Paz 2012, alegadamente pela sua contribuição para a paz, a democracia e os direitos humanos durante mais de seis décadas.
E justamente.

Temos de recordar que a Europa, em tempos anteriores – longos tempos! – foi um quase permanente campo de batalha e muito para além das, mais próximas, duas Grandes Guerras mundiais. Sem ir muito longe na história, convém lembrar sucessivas tentativas imperialistas de alguns povos europeus no sentido de dominarem todo o Continente. Desde logo a Guerra dos Trinta Anos entre 1618 e 1648 – um conflito dramático entre os Habsburgos, senhores da Espanha e do Sacro Império Romano-Germânico, da Áustria, Hungria, Boémia, Holanda, Baviera, Flandres, norte de Itália e Bélgica, e os Bourbon de França. Desta guerra saiu o conhecido Tratado de Vestefália e, com ele, o fim da existência de dois poderes na Europa: o temporal e o espiritual em que se vivia então. Trouxe, este tratado, o início da independência dos Estados sobre a situação que era conhecida como Republica Christiana. Não trouxe, porém, a paz. Nos séculos seguintes continuaram a surgir guerras sangrentas na Europa: recordem-se as guerras de 1701-1713, 1756-1763, 1792-1815 (cfr. Paul Viotti, International Relations and World Politics, New Jersey: Prentice Hall, 1947). Depois, as duas referidas Grandes Guerras, o Holocausto, a ocupação soviética da Europa de Leste, a guerra civil na Irlanda e outros conflitos localizados dentro dos Estados europeus, enraizados em nacionalismos abafados e longe de estarem resolvidos. A Catalunha expressa-o hoje com clareza, mas há várias outras situações latentes.

Sem a construção europeia é de admitir que o terror da guerra não tivesse sido esconjurado durante estas últimas décadas da Europa.

O Nobel da Paz tem, pois, sentido em 2012, mas virado ou olhando o passado… É que, no presente, não se enraízam quaisquer esperanças de novas primaveras na União Europeia! A contrário, são inúmeros os fantasmas que voltejam sobre o presente ameaçando o futuro. A incompetência dos líderes europeus dói, tanto quanto a sua “liquidez” política e doutrinária. O populismo avança subtilmente entre a pobreza e os excluídos da sociedade. Os nacionalismos, que nunca morreram, estão a equipar-se, enquanto a democracia sofre dores porventura terminais às mãos da Sr.ª Merkel. Quem se der ao esforço de estudar o contexto sócio-político e financeiro da grande depressão de 1929 vai aí encontrar a sopa de pedra que os europeus tiveram de comer a seguir. Está lá tudo!

Não há qualquer tipo de solidariedade europeia nos tempos que correm e talvez nunca tenha havido qualquer sincera solidariedade fora dos interesses de certos Estados. Lembro, apenas, de passagem, que seria conveniente, um dia, fazer a comparação do que recolhemos dos fundos europeus, relativamente ao que pagamos à Europa e, sobretudo, do que empresas, protegidas de muitos Estados (a França, a Alemanha…) levaram para sua casa dos fundos formalmente atribuídos a Portugal (transferência de tecnologia, realização de grandes obras públicas, empréstimos deles e reembolsos nossos, etc.).

A Europa está a ser germanizada. Ora, o prémio Nobel da Paz não poderia, jamais, gratificar esse trágico itinerário. O medo, a insegurança, a angústia dos europeus que estão a sofrer uma austeridade imoral não poderia aceitar tal gratificação. Seria um sinal para avançar no sentido de um super-Estado, na base de (pretenso) super povo, uma raça alegadamente superior contra todos os outros cidadãos da Europa.

Uma estratégia repetida, nestas colunas, à exaustão tem a ver com a ideia de Portugal como país euro-atlântico. Só nesse âmbito poderemos ser um povo que conte no contexto de um futuro incerto. Há que reler e pensar os escritos do Pe. António Vieira, de Fernando Pessoa e de Agostinho da Silva. Talvez valesse mais a pena do que andarmos de mão estendida às ordens da “Troika”.

E, para terminar: há por aí alguém disponível para levantar um programa tipo ERASMUS no âmbito dos países de língua portuguesa? Aceito ideias e agradeço-as antecipadamente.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

DAR SENTIDO AOS SACRIFICIOS


Não estamos condenados à pobreza, ao sofrimento e à ignorância!

As nossas vidas perderam muito do seu significado e sentido nos últimos tempos e não foi só por questões económicas conexas com a austeridade que os poderes nos vão impondo e a que alguns espantosamente se subjugam silenciosamente, quando a não defendem. Vivemos, sobretudo, uma época de crenças moles e raras convicções. Um tempo de lassidão e laxismo. Como disse Martin Luther king “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.

O 10 de junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades é passado geralmente na praia. O 5 de outubro (que deixou de ser dia feriado) reúne uns pequenos grupos de republicanos desnorteados nalgumas cerimónias incaracterísticas  e a que o povo é absolutamente alheio. O 1º de dezembro é para as compras e não chega. E o Natal que aí vem, felizmente menos mercantilizado, já nada diz a muitos de nós afastados do consumismo que o vinha caracterizando.

Um silêncio ensurdecedor instalou-se no nosso quotidiano comum e aprisiona, mesmo, a consciência de muitos. Reina sobre as grandes questões da sociedade, e até já muitas elites intelectuais embarcaram na desistência de pensar a vida.

O pragmatismo que se impõe nas contas públicas e nos orçamentos privados não é inconciliável, porém, com um plano de batalha transformador da sociedade a médio e longo prazo.

O maior fator do desespero dos cidadãos é a vacuidade do discurso dos poderes públicos quando se fala do futuro.

Não estamos condenados à pobreza, ao sofrimento e à ignorância!

Uma outra sociedade é possível!

A pobreza em que mergulhamos não tem a ver, apenas, com a carência dos bens materiais, a falta de alojamento condigno, a deficiente alimentação e males semelhantes. A grande interrogação e a maior angústia, hoje, tem a ver com o facto de que ninguém sabe o que será o amanhã.

O medo mata. Vidas, sonhos e um futuro decente. Está instalado na nossa sociedade. O Ocidente está nas mãos de gente sem memória. A UE, sem norte, ergue-se como o templo dos egoísmos indiferente às crescentes desigualdades sociais. Ora, as sociedades em crise são o terreno propício para crescer o medo e toda a espécie de radicalizações. Em Portugal, um país de joelhos, cada dia que passa somos menos pessoas. Os governantes, que parecem só saber a tabuada do défice e da dívida, ignoram o desemprego, desvalorizam a redução brutal dos rendimentos das famílias e cortam os apoios sociais. A subida draconiana dos impostos vai de par com a agonia inexorável do funcionamento dos serviços públicos. Culpabiliza-se os cidadãos pelo consumismo, pelo desequilíbrio externo, pelo desemprego, por estarem reformados, por não emigrarem.  A mentira é anestesiante e desmotivadora, mas não deixa de ser mentira ainda que gritada todos os dias aos ouvidos de encautos cidadãos.

A regra de ouro de qualquer contrato social é a defesa dos mais desprotegidos. Ora, é precisamente o contrato social que existia entre o Estado e os cidadãos que tem sido meticulosamente rasgado, escamoteado no acordo com a “Troika” que bebe das mesmas ideias e opções de Thatcher.

Está em marcha a desconstrução do Estado social e que ninguém se iluda pois com ela vai o fim da democracia.

É preciso reapreciar o Estado-providência? É, seguramente. Mas este é uma patologia do Estado Social que, esse, é, um dos pilares da democracia. Cuidado porque, por este andar, vai o bebé com a água do banho…

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

SALVAR O ESTADO SOCIAL E AINDA GANHAR ECONOMICAMENTE COM ISSO


Com alguma lucidez e sentido estratégico em vez do naufrágio poder-se-ia, porém, criar uma enorme oportunidade de negócio.

Em crónica anterior já me referi ao tema atualissimo das funções do Estado e à necessidade urgentíssima de o debater e de definir a respetiva doutrina a longo prazo. Do caleidoscópio de questões que emergem desse tema refiro-me, aqui, ao Estado social que uns querem desconstruir e, outros, gritam que não aceitam que dê qualquer passo a trás.

Apesar da crise violenta que nos dobra a espinha e da austeridade que já nos leva a vida, será possível manter o Estado social (o modelo social do Estado) previsto na Constituição da República e de que, ainda há pouco beneficiávamos? Respondo, sem hesitação, que é possível além de ser necessário. E, acrescento, poder-se-à fazer assentar nele até uma estratégia de desenvolvimento para o país.

Vou explicar-me.

Não tem sentido útil rever e redesenhar as funções do Estado sem um desígnio para o país. Tais funções implicam com esse desígnio e a estratégia para lá chegar e não será admissível que se restrinjam às questões do défice e da despesa pública. Se assim for – como tem sido – iremos parar todos a uma situação na qual nem de Estado precisaremos…

O Estado social tem a ver com os direitos, constitucionalmente consagrados, à segurança social e à saúde, sobretudo no que ora interessa, sendo certo que o seu perímetro é mais largo. Não será possível alcançar uma sociedade coesa e solidária, virada para o futuro, sem que tais direitos sejam usufruídos amplamente por todos. A ideia de democracia, na vertente social, exige-o, de resto.

É caro manter os sistemas de segurança social e de saúde? É. E em tempos de crise económica e financeira é difícil? É. Temos, todos, de o pagar? Temos. Queremos mantê-los? Creio que a resposta é sim, não importa se como prestações diretas do Estado ou entregues à economia privada quanto a sua gestão. Ao contrário do que se possa pensar não estamos, porém, perante a quadratura do círculo mas, apenas, incompetência e preguiça a rodos, além, é claro, da incapacidade política de afrontar os interesses das corporações, nacionais e estrangeiras, do setor.

Com alguma lucidez e sentido estratégico em vez do naufrágio poder-se-ia, porém, criar uma enorme oportunidade de negócio. É que, sendo o Serviço Nacional de Saúde português um dos melhores do mundo (noutra ocasião falarei da segurança social) poderia “exportar” uma infinidade de bens e serviços, em que há mais valias, portuguesas, para outros países. Lembremo-nos, nomeadamente, dos países africanos de língua portuguesa em que não existe Estado social mas a ambição de o edificar é grande e urgente. Com espírito de solidariedade – que não tem porque excluir a justa retribuição – resultariam daí rendimentos que poderiam mais de que sustentar o nosso SNS. Se o não fizermos já, outros o vão fazer por nós e, indubitavelmente, com custos muito superiores para esses países porque em espírito meramente mercantil.

Volto às funções do Estado. O que mudar, então, no sentido de melhor aproveitamento do que já temos? Não é preciso desconstruir o SNS: o que urge é incrementá-lo, valorizá-lo, dignificar os seus profissionais e, sobretudo divulgá-lo ao mundo como marca portuguesa. Na vertente dos PALOP’s, decerto, mas não só porque há mais mundos a explorar. O turismo de saúde é um deles, bem como a prestação, em Portugal, de cuidados de saúde aos portugueses da diáspora. Estes beneficiam de seguros de saúde ou têm direitos face aos estados de acolhimento que permitiriam tratar-se em Portugal pagos por esses sistemas. E todos lucrariam.

Não estarei a dizer nada de novo, mas de novo apenas. Ainda há dias li na imprensa que o “O Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra foi escolhido pela segunda maior caixa de saúde pública da Alemanha, com oito milhões de inscritos, para tratar todos os seus beneficiários que adoeçam durante a permanência em Portugal. (Expresso, 27 Out. 2012). Não se sabia que era impossível… e, por isso, conseguiram-no!

Em vez de se autoreduzir e destruir as nossas vidas o Estado português tem de ser criativo.

E se começasse por aqui?