quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O SUCESSO DOS PORTUGUESES NO ESTRANGEIRO E O SEU INSUCESSO EM PORTUGAL


O que faz dos portugueses heróis quando labutam fora de portas é a coragem e o que os torna invertebrados cá dentro são as políticas de conforto à preguiça e de subsidiodependência.

Eu vi, em Paris, nos passados dias 14, 15 e 16 de Setembro, a energia e a vontade de vencer de muitos portugueses. E, por isso, testemunho que Portugal é possível neste mundo global em que vivemos desde que deixem os portugueses ser livres …e portugueses!

Sob os auspícios da Câmara de Comércio e Indústria Franco Portuguesa, superiormente dirigida pelo Prof. Doutor Carlos Vinhas Pereira, um português de sucesso em França, realizou-se o I Salão Imobiliário Português e o IV Forum dos Empresários Luso-Descendentes e Portugueses em França, no Parque de Exposições de Paris. Inúmeros visitantes – não só portugueses residentes em França mas, também, franceses e, até empresários de outras nacionalidades por lá passaram à procura de negócios em Portugal. Cumpre sublinhar, pelo que vi, que os portugueses, - o Portugal que trabalha, cria e vence – está na rota de muitos investimentos estrangeiros.

Confirmei, então, a minha convicção de que um desígnio nacional, premente, há-de ser o reencontro da diáspora portuguesa em torno de alguns valores, patrióticos e morais. Haverá 5 milhões de portugueses espalhados pelo mundo que os poderes deste país, porém, sucessivamente tem ignorado, mas que são uma variável necessária e relevantíssima para ultrapassarmos as crises do presente. E eles – que são dos melhores de nós (pela coragem de partir, pelo espírito de sacrifício que os anima na sua luta por esse mundo fora) não se afastaram da portugalidade. Foram apenas esquecidos pelo autismo e inveja, até, dos que cá ficamos.

Voltei, entretanto, a Portugal. Nos dias seguintes, em duas ocasiões distintas, julgo ter entendido algumas das razões para estarmos a ser subjugados pelos nossos credores. É que, por cá, os nativos não querem trabalhar (apenas querem emprego…) nem estão dispostos a lutar pela conquista de um posto de trabalho, ou pela sua manutenção. Mesmo a austeridade, sem ética e sem equidade nem sentido de futuro, já é, por muitos, aceite num conformismo ingénuo ou na vivência de medos subtilmente instilados na sociedade pelos que nos governam cá dentro e, sobretudo, de lá de fora.

António Borges, no seu afã de ganhar de ganhar dinheiro fácil e na sua total falta de jeito para a política, quando qualificou os empresários portugueses de “ignorantes” não soube justificar a sua afirmação. Mas disse uma relativa verdade que aqui sublinho: muitos empresários portugueses são mais que ignorantes, são corruptos e nada sabem fazer sem que a torneira do Estado se abra a jorrar dinheiro para as suas ambições. Há muito que defendo que não é o dinheiro que faz os verdadeiros empresários – nem o ter amigos nos partidos para o alcançar (e depois devolver em múltiplos esquemas de engenharia fiscal e financeira). Mas quando qualquer trolha (profissão honrada, de resto) se traveste de empresário e entra na banca ou na sede dos poderes políticos e aí, por inconfessáveis motivos, assenta praça como general… alguma coisa está mal.

A recuperação do nosso pais precisa de Trabalhadores e de Empresários (com letra grande) e não daqueles que só querem um emprego ou nada saber fazer, nos seus fatos Hugo Boss, sem o Estado ao lado.

O que faz dos portugueses heróis quando labutam fora de portas é a coragem que os leva a ser dos melhores empresário e trabalhadores do mundo. E que os torna invertebrados cá dentro são as políticas de conforto à preguiça e de subsidiodependência que lhes mata a alma. Havemos, um dia, neste aspecto, de confrontar, também, o actual presidente Cavaco Silva, que, para muitos, é um dos responsáveis morais por esse espírito leviano e inconsequente desde os tempos em que, para ganhar e manter maiorias absolutas, se conformou ao “pão e circo” para todos e algo mais, porventura, para alguns… Digo isto, claro, na certeza incontornável de que terei de nascer outra vez (ou duas vezes?) para ser tão sério como o Presidente o é.

Por mais que queiramos sair da crise não será viável consegui-lo sem os portugueses da Diáspora  Eles são os melhores dos melhores de nós. E, agora que a juventude qualificada abandona este país a apodrecer, mais vigor terá esta convicção.

Como o conseguir?


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

OS SINOS TOCAM A REBATE


Mas não nos agrilhoem numa austeridade que não passa de um expediente
para nos roubar os nossos bens e a nossa vida.

O comboio a vapor que passava entre os pinheiros na terra da minha mãe é uma das imagens mais fortes que guardo da minha infância austera, pobre. Também dos sinos da igreja tenho lembranças; de quando repicavam a chamar para a oração, novos e velhos, viúvas e órfãos, vestidos a “rigor” na penúria mais extrema dos que nada tinham a não ser a felicidade de viverem em solidariedade campesina e com fé no Destino. E também quando tocavam a dobrar e eu ficava assustado no desconforto daqueles sons que não sabia para aonde iam e quem os manipulava. Já então tinha cá dentro, nos escaninhos de mim, os dilemas do resto da vida. Só que não sabia dar-lhes nomes e, com medo, tremia.

Uma vez, acordei estremunhado a altas horas da noite, com os sinos a gritar por auxílio. À minha volta já corriam, pela “casa” onde vivia vultos apressados, e ouviam-se gritos e suspiros, quando percebi que tinha havido uma “desgraça” (era o que se dizia) e o povo estava a ser convocado para acudir. Furando entre as pernas dos adultos estremunhados como eu, vi, ao longe, entre muita gente triste, uns faróis com uma luz mortiça que, depois, percebi que era um desconjuntado carro de bombeiros. Vinha acudir.

Evoco estas singelas memórias porque, ao ler um jornal de fim de semana, o relato da morte de cinco homens num poço, em Vilela Seca, Chaves, me levou até lá, a esse meu tempo de vésperas de difícil luta pela simples sobrevivência dos meus. Dizia assim a notícia: “Quem deu o alerta foi a nora de um dos empregados agrícolas. Ao aperceber-se da tragédia, a mulher veio a correr a Vilela Seca gritando para que alguém tocasse os sinos a rebate e juntasse a população para ir ajudar. Os primeiros que chegaram ao local ainda tentaram destapar completamente a entrada do poço com um trator, mas já pouco puderam fazer.” (…) Sábado, oito de setembro de 2012.

A história, ao contrário do que alguns defendem, não é uma progressão continua para a prosperidade. Seja o homem, por natureza, bom (mito do bom selvagem de Rousseau) ou mau (homo homini lupus, Hobbes), nada do que foi civilizacionalmente adquirido é definitivo. A luta pela cidadania tem de ser ativa, constante, coletivamente assumida, do nascer ao pôr do sol.

Portugal está a fenecer. Não é, decerto, a primeira vez que os deuses, face aos homens deste canto da Europa, se revoltam. Mas o tempo que vivemos é já de tragédia que tende a agravar-se exponencialmente. Dizia um pai, há dias, na antena de uma rádio (cito de cor): Não aguento mais. No dia em que não tiver comida para dar à minha filha saio à rua eu mato-os.

Os sinos dobram por nós – os que vivemos a vida com o suor do nosso trabalho e não recebemos comissões nos concursos públicos, nem temos contas em “off-shores” criminosas. E dobrarão com mais intensidade quanto mais nos resignarmos aos poderes que dizimam, sem escrúpulos, o nosso quotidiano.

Há uma saída possível. Que os sinos toquem a rebate mas para nos acordar desta modorra em que andámos.

Precisa-se de cidadania ativa, o que implica que cada um saia da sua área de conforto (cada vez mais restrita) e deixe de ser cobarde perante esta imensa fraude que se trata como austeridade.

Será que aqueles que punem os portugueses – através, também, de outros portugueses! – por serem gastadores e trabalharem pouco para o seu nível de vida, são exemplo a seguir?

Regressemos à austeridade, sim. De costumes, de regras honestas de conduta, de valores, de dignidade humana, de justiça social. Mas não nos agrilhoem numa austeridade que não passa de um expediente para nos roubar os nossos bens e a nossa vida.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

E TUDO O FOGO LEVOU


Apagar incêndios é amortalhar a vida. Na floresta como na política. Nada se constrói nas cinzas ainda que nelas medrem muitos e grandes interesses.

 Os incêndios deste verão não destruíram apenas mato, pinheiros, eucaliptos e outra vegetação. Quem se quedar por estes aspetos, mesmo considerando alguns danos pessoais e a vida, até, de alguns que o fogo levou não verá senão a espuma da vida. É que o país também está a arder, ora em lume brando, ora em altas labaredas.

As chamas alastram por montes e vales abandonados onde os homens desistiram de viver. Abandonada a cultura dos campos, o tratamento da floresta, a reprodução do gado, não ficaram horizontes de sobrevivência nesses espaços. Ninguém sabe o destino que lhes caberá e, pior, ninguém se preocupa com esse futuro.

Portugal vai ardendo nestes fogos florestais mas, também, com eles, no mais fundo da sua identidade. Os fogos destroem a natureza física, mas, também, outros destroem as esperanças de qualquer futuro para a nossa Pátria. Fecham hospitais, escolas, tribunais e desaparecem outros serviços públicos na base de critérios financeiros muito discutíveis e de critérios políticos deprimentes. É onde menos se justifica que mais precisa é a presença do Estado, se não for por outras razões – que são fortes – pela ideia simples de que é preciso que a política sinalize os caminhos do futuro. E estes vão passar, mais cedo ou mais tarde, pelo país real, de Bragança a Sagres, da Figueira da Foz a Vilar Formoso e, não, pelo desditoso centralismo gerido a partir da capital do que foi um império mas já deixou de o ser há muito. E ninguém ainda o percebeu.

O tempo presente é vivido sobre o “império do efémero” (Gilles Lipoversky) e da apoteose do presente ignorando-se o passado e descuidando-se o futuro. Só vale o que gratifica imediatamente. A urgência comanda a vida que está nas mãos dos interesses de mercados financeiros globais e já quase não nos pertence. Na política isto expressa-se no oportunismo das decisões baseado na ideologia do curto termo. A urgência e a exceção têm prioridade sobre tudo e sobre todos e os cidadãos silenciosos, sobretudo até anestesiados pelo medo, já são meros figurantes num filme que não é deles, nem para eles.

Apagar incêndios é amortalhar a vida. Na floresta como na política. Nada se constrói nas cinzas ainda que nelas medrem muitos e grandes interesses.

Quanto custaria ao erário público prever e prevenir as catastróficas ignições de cada verão? E quanto custa combater os fogos? Uma nação digna faria contas, mas a honra escasseia no seio do poder. A honra e a competência porque, extinto o fogo (e alguns fogos fátuos) a verdade é que se torna claro que é a mediocridade gananciosa que nos governa em conluio com agiotas globais.

É uma dor de alma ver partir para a diáspora tantos dos melhores deste país – e que tanto dinheiro nos custou para se formarem – e, outros, que ainda vão ficando, serem ostracizados pelo simples facto de terem ideias e saber mas não terem um qualquer cartão partidário!

O fogo tudo leva.

O quotidiano de austeridade, sem sentido e sem esperança em que vivemos é um mero jogo de fortuna e azar. Eu quero uma Lei eleitoral autárquica só para mim!... e eu quero vender a RTP ao Eduardo dos Santos… eu tenho que sair do ministério às 5 h para acompanhar (à sucapa) o meu escritório…

Com estes filhos da nação, não haverá nação que resista.


                                               

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O NOVO CÓDIGO DO TRABALHO



As reformas contra o trabalho são armas prontas a disparar contra a dignidade humana.



Neste início do mês de agosto de 2012, a sociedade portuguesa viu-se confrontada com profundas alterações no sistema de relações laborais face  à  entrada em vigor de um novo código do trabalho - e digo novo não pela quantidade de alterações que traz, mas pela mudança estrutural, ideológica, que encerra.

Alguns atiraram-se logo à decifração das novidades da lei deixando de lado a análise e a explicação dos seus motivos, com o que apenas olharam para a “vidinha”, como habitualmente. Dizem a cor dos relâmpagos e a intensidade dos trovões, mas ignoram as causas da tempestade. E, por isso, como será (ou não) possível alcançar a bonança. Não vou, naturalmente, por aí neste breve escrito. Convido, pelo contrário, o leitor a uma reflexão menos superficial, ainda que considere relevante a que procura “dizer” a lei.

O novo código emerge num tempo em que a democracia em Portugal está suspensa. Cumpre - um governo baseado em eleições - um programa estabelecido e imposto por uma ditadura financeira não eleita. Diz-se que se trata de austeridade, mas tudo o que se vai passando não é, senão, a punição de uma nação inteira em benefício de uns poucos (também portugueses para nossa vergonha).  “Quem não tem dinheiro, não tem vícios “, repetem eles ao sangrar este país (e outros) convictos de que a democracia é um pechisbeque para ricos.

O novo código está profundamente marcado por uma orientação ideológica neoliberal. Parte do princípio de que a flexibilidade (descontrolada) é imprescindível à eficiência económica e à competitividade da economia que a regulamentação (rigidez, diz-se) do mercado de trabalho não permitiria.

O novo código leva indiscriminadamente à individualização das situações de trabalho e desestrutura a negociação coletiva. A ideia de “trabalho decente” com estabilidade e segurança mínimos acabou.

De resto também o valor do trabalho se esvai considerado, outra vez, uma mercadoria como outra qualquer num mercado desregulamentado. Os trabalhadores perdem muito, mas os empregadores nacionais não vão ganhar nada, salvo alguns daqueles que estão sentados à mesa do Orçamento do Estado, do lado dos políticos do costume (que cada vez se vai descobrindo que são mais… e ainda a procissão está no adro) e desfrutando do suave perfume da corrupção legalizada. 

O novo código do trabalho alicerça-se no medo que invade os portugueses. Medo de perder o emprego, de perder um qualquer (formal) subsídio de sobrevivência, medo de mais um corte na retribuição devida pelo trabalho, medo de perder a saúde, medo de ter medo, também. O medo cria as condições para emergir um certo tipo de sociedade ( como proteção contra o medo, diz quem manda)  com cidadãos anestesiados e indefesos face à manipulação política. O medo reinante, hoje, é o mais apto instrumento de tutela da sociedade com vista a amordaçar a liberdade.

O novo código do trabalho é um castigo para os trabalhadores sob a forma misteriosa de uma austeridade que uns patetas pretendem salvífica e outros, proxenetas políticos, assumem como o nosso destino. Enquanto a atividade politica partidária for vivida como um mero negócio desenvolvido por “ comerciantes” que nunca tiveram de lutar por nada na vida a não ser lugares ao sol do poder, não morreremos mas também não passaremos deste estado de coma em que nos encontramos.

Poderemos ser pobres, mas não temos de abdicar da dignidade.

As reformas laborais recentes são contra o trabalho, são armas prontas a disparar contra a dignidade humana. E não esqueçamos que trabalhadores somos, fomos ou seremos todos nós.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O FUTURO É DOS PORTUGUESES


É no estrume do Estado que tudo providência a todos – sobretudo aos dependentes de certos partidos políticos – que se gera a mediocridade e que soçobram os melhores.


O melhor dos mundos é o nosso, porque somos nós próprios que o podemos conceber e realizar.

Indigna-me, por isso, ouvir dizer: “Isto só podia acontecer em Portugal”, “Portugal é um país de corruptos”, “Lá fora é que é bom”, “Os portugueses não prestam para nada”, e frases semelhantes.

Não é verdade, desde logo. Não há povos ou nações quimicamente puros (embora haja no história dramáticos momentos em que alguns nisso acreditaram). Em qualquer país há bons e maus governantes, bons e maus governos, corruptos e malandros, empreendedores e oportunistas. Não se entende, pois, este masoquismo nacional. E nisto não vai nenhuma desculpa relativamente à mediocridade reinante que deverá ser apontada e desmascarada (bravo! D. Januário Torgal Ferreira) sobretudo por quantos, de boa-fé, tenham ideias e vontade de servir genuinamente o país mas não queiram medrar nos esconsos vãos dos partidos que temos – o grande cancro da nossa democracia.

Admita-se, porém, por mero exercício de reflexão, que, de facto, nós, portugueses somos uns enfezados. Ora mesmo aí só de nós nos poderíamos queixar porque nos teríamos posto a morrer em vez de abraçar a vida, lutar pelos nossos direitos, conquistar os caminhos do futuro.

Há um aspecto decisivo que vem mesmo a talhe de foice e que tem marcado a nossa mentalidade. É que exigimos sempre tudo ao Estado como se ele fosse o nosso pai. E quando digo tudo, é tudo: até quando chove lhe exigimos sol, e quando faz sol lhe exigimos chuva – ou, o que é o mesmo, subsídios para a falta de sol ou da chuva.

É aqui, no estrume do Estado que tudo providência a todos – sobretudo aos dependentes de certos partidos políticos – que se gera a mediocridade e que soçobram os melhores.

Apresento um exemplo. É inegável o valor de qualquer investimento na área cultural não sendo preciso argumentos para o defender. Daqui resulta que qualquer agente ou grupo que a tal se dedique – com valor ou sem ele – passa, em Portugal, o tempo a berrar por subsídios do Estado e se eles não vêm a paisagem cultural desertifica-se. Nos Estados Unidos, porém, o Estado pouco disponibiliza ao sector – e não se diga que a cultura nesse país não é fascinante. Aí é a sociedade que financia, através dos instrumentos do mecenato, aqueles que entende merecem apoio. E para o merecer os peticionantes têm que mostrar o que valem e não, apenas, colocar-se na linha de partida.

Nós, portugueses, não somos piores (talvez não sejamos também melhores) do que outros povos, mas estamos habituados a fiarmo-nos mais no Estado do que nas pessoas. E quando o Estado está capturado por certos interesses obscuros – e está cada vez mais – não é de esperar nada de bom.

A afirmação da liberdade, da dignidade e da força dos portugueses tem de ser configurada não no colo do Estado, mas contra o Estado.

O neoliberalismo que avança sem rédeas na sociedade e também já tomou conta do nosso país, apesar das suas políticas, por vezes dramáticas e desumanas, parece poder ter o condão de chamar à razão e à acção muitos daqueles – ricos, pobres e remediados – que dizem mal de tudo, mas nada fazem, eles próprios, por si e pelo seu país.

Seja como for, o debate sobre as funções e a amplitude do Estado está entre nós. Pena é que não haja cidadãos à altura do desafio e disponíveis para nele entrar.

Temos medo de crescer. A nossa medida é a do “Portugal dos pequeninos”. Mas o futuro começa hoje.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

AS “OPORTUNIDADES” DO COSTUME


Pensava que as “Novas Oportunidades” tinham ido parar ao baú das “velhas oportunidades” e não se falava mais no assunto. Enganei-me.


A óbvia necessidade de qualificação dos portugueses levou o Governo de José Sócrates a lançar um programa para adultos  que ficou conhecido pela designação “Novas Oportunidades”.

Muitos o utilizaram e bastantes dele retiraram proveito, por entre as habituais trafulhices de alguns que dele se aproveitaram para enriquecer à custa do dinheiro fácil do Estado. Não ignoro que, por encomenda do Governo de Passos Coelho, o Instituto Superior Técnico procedeu a uma avaliação dos resultados desse programa e concluiu pelo seu reduzido efeito nomeadamente na empregabilidade e nos salários. As conclusões dessa encomendada avaliação foi muito contestada pela associação representativa dos profissionais implicados na sua implementação e nesse ensino que qualificaram o estudo (avaliação) como “enviesado”, um “embuste”, “ideologicamente preconceituoso”, e mais ainda. A habitual questão partidária de saber quem lava mais branco…

A partir deste breve histórico eu tinha concluído que as “Novas Oportunidades” tinham ido parar ao baú das “velhas oportunidades” e não se falava mais no assunto.

Enganei-me.

Por um lado, mudado o nome, o programa continuou, agora na linha da tabuada que orienta o atual governo, alegadamente direcionado para a formação profissional – o que, até, me parece acertado, mas não suficiente, para eliminar, como lixo, o programa do anterior governo. Por outro, vim a constatar a profunda paixão que alguns dos atuais donos do poder mantinham pelo defunto programa. Afinal o espírito das “novas oportunidades” paira sobre nós!

Claro que na base deste escrito está o “fenómeno” que dá pelo nome de Miguel Relvas (vem aí uma queixa crime, quem me vale?). O seu caso representa, com efeito, o regresso do espírito das novas oportunidades. Refletindo melhor: o espírito das “oportunidades do costume”, aquelas a que só têm acesso os poderosos, os espertos, os que correm mais ou falam mais alto. Os donos dos partidos políticos, afinal, e os seus cúmplices. Como professor universitário que sou há mais de trinta anos, por mim também passaram alguns caciques políticos, pobres ignorantes, mas ilustres distribuidores de prebendas e favores que, à custa disso, lá iam tirando os seus cursos. Um dia voltarei a este assunto e com nomes…

A Universidade Lusófona tem o direito – e tem competência – para atribuir títulos e graduar os seus estudantes. E não duvido por um segundo que Miguel Relvas, enquanto comerciante, (na nomenclatura jurídica), e, também, como jurista com loja de advogado aberta é uma sumidade. Mas não ficaria mal à Lusófona demonstrar a genialidade do rapaz. Estou certo que o faria sem dificuldade e, não o fazer, é um erro crasso. Eu próprio tenho lido e ouvido, em muitos quadrantes, que o seu saber e experiência em alguns setores – planificação fiscal internacional (off-shores), contratos difíceis e financiamentos fáceis, consultoria de negócios, joint-ventures transnacionais e atividades similares – são inatingíveis pelo comum dos mortais. E até deixo de lado “outros saberes” ligados ao ditado “o segredo é a alma do negócio”, o que, no seu caso, é uma extraordinária mais valia.

Uma coisa não percebo, porém. Porque é que “eles” querem todos ser engenheiros e doutores? Não perceberam, ainda, que nesta sociedade fluida, complexa e de alto risco – mutável a todo o instante -, esse “canudo” não significa nada, salvo se assente numa forte personalidade, na vontade de vencer e em espírito de sacrifício?

Deixem de ser provincianos, todos vós, Sócrates e Relvas, deste tempo de vésperas. Sejam grandes e inteiros, sejam autênticos, nada exagerem nem excluam do que são, ponham tudo o que são no mimo que fazem (Fernando Pessoa/Ricardo Reis).

“Ó glória de mandar! Ó vã cobiça”…

quinta-feira, 5 de julho de 2012

QUANDO A CORRUPÇÃO É LEI

Eu trabalho catorze, quinze horas por dia – eu e tantos outros cidadãos como eu – para esta corja andar impune, à solta, a gastar o que não é deles? Que parvo que eu sou! Que somos!

 Assisti, no passado sábado, a uma conferência na Universidade Lusófona do Porto em que o Dr. Luís de Sousa, presidente da TIAC (Transparência e Integridade, Associação Cívica), juntamente com o Prof. Paulo Morais, vice-presidente, evidenciaram aspetos da catástrofe que é a corrupção em Portugal. Sugiro que se consulte o website dessa associação: www.transparency.org, para que haja consciência desse cancro e das suas profundas metástases.
 
Só quem sabe poderá agir com eficácia.
 
Pelo caminho, de regresso a casa, comprei os jornais de fim de semana e, ao ver a primeira página do Expresso (30 de Junho de 2012) saltou-me logo à vista a imagem de um homem, em patente estado de desespero, agarrado ao Mercedes do Ministro da Economia, e, a tentar subjugá-lo, um segurança bem armado. Um “abraço”, pelas costas, do poder à miséria, conclui.
 
Dispersei o olhar por outras parangonas dessa primeira página e que vi? Claro, o outro lado desse mesmo poder na sua cumplicidade com as negociatas e o “capitalismo de casino” em que Portugal está afundado:
 
“Condenados do BPN geram fundos do Estado”
 
“Ex-sócio de Moedas gere rendas sociais”
 
“Francisco Louça: o PS é um partido corrompido”.
 
Vieram-me, logo, à memória muitas outras situações em que alguns políticos, encavalitados nos galhos do Estado, direta ou indiretamente, têm roubado o rendimento suado do nosso trabalho: Duarte Lima, Isaltino Morais, Dias Loureiro (ah! são tantos que fico por aqui). E não consegui esquecer os seus cúmplices da banca e da construção civil (… as PPP!). E até o caso dos submarinos (dois processos crime à espera - político-partidariamente – da abençoada prescrição da praxe) voltou a incomodar-me.
 
Eu trabalho catorze, quinze horas por dia – eu e tantos outros cidadãos como eu – para esta corja andar impune, à solta, a gastar o que não é deles? Que parvo que eu sou! Que somos!
 
Como se a corrupção – que todos denunciam, de que alguns beneficiam, mas poucos combatem – não bastasse, sofremos, agora, a punição de gastadores que dizem que somos através de uma austeridade que, mais do que um processo, parece ser já uma situação que veio para ficar. E, ainda mais, assistimos, cada dia que passa ao avanço de um Estado portador de um projeto autoritário e absolutista que não vê à sua frente mais do que números. As pessoas, os cidadãos, são meros algarismos, sem alma, sem transcendência, que valem tanto como os números das estatísticas, ou ainda menos.
 
Lembrei-me também que, no século XVII, em Ingalterra, Jaime II, um rei da jaez destes “monarcas” que nos governam, viu ser-lhe imposto pelo povo a celebre BILL OF RIGTHS – uma declaração dos direitos dos cidadãos contra o seu absolutismo.
 
Em Portugal não vejo, neste momento, uma sociedade civil capaz de se indignar a sério contra o avanço de um Estado que é já, em muitos aspetos, mais totalitário que o do Salazarismo. Ao contrário: parece-me que vamos a caminho do passado e de um qualquer novo Código de Hamurabi, com leis e punições que já não existiam há 4.000 anos.
 
A História não fala só do passado. Também anuncia os caminhos do futuro. Seria conveniente reler, pois, alguns passos do que fez a história de Portugal  e a da Europa. No seu melhor e no seu pior.
 
Isto vai acabar muito mal!