quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A JUSTIÇA A QUE TEMOS DIREITO


A questão essencial é do domínio da política e é aí que terá de encontrar soluções globais e concretas.

O tempo em que vivemos está minado por dificuldades várias mas, simultaneamente, é um tempo pleno de desafios e em que novos horizontes, e melhores que os presentes, são possíveis. E, como escreveu recentemente Vitorino Magalhães Godinho (Os problemas de Portugal, Colibri, 2009) “Nestas circunstâncias adversas, será bom que ressurjam as inquietações, e não se desista de reflectir na pergunta inevitável: que rumo para Portugal?”

A propósito da abertura do novo ano judicial, que recentemente ocorreu, justificar-se-ão, talvez, algumas reflexões ou inquietações enquanto aí se renovou o debate sobre certas questões do nosso sistema jurídico e judiciário atulhado de entorses, muitas delas derivadas de pressões dos poderes económicos e corporativos insaciáveis que nos rodeiam por todo o lado.

Aqui, como noutros espaços da vida pública, mais do que maldizer, ou dizer sempre os mesmos estereótipos, é preciso focar toda a nossa energia na busca de soluções para os reais problemas da justiça. E, decerto, tentar perceber onde radicam os conflitos de interesses que potenciam o mal estar.

Que rumo para a justiça?

Enquanto servidor do direito, nomeadamente como advogado há mais de 30 anos, de algum modo me será permitido, certamente, testemunhar inquietações diversas no desejo de ver superadas as dificuldades do tempo presente. Em geral – adianto-o desde já – não condeno aos infernos o nosso sistema de justiça, mas critico-o severamente na convicção, que é a minha, de que pode e deve ser melhorado. Sofre, afinal, de esclerose múltipla, mas pode sobreviver com o mínimo de dignidade se dele se cuidar.

O pior mal a assacar ao nosso sistema de justiça é, hoje, o de que tarda excessivamente a dar resposta às angústias dos cidadãos e das empresas. Tal corrói valores essenciais do Direito, nomeadamente a segurança através do Direito, a segurança do Direito e a estabilidade das situações jurídicas. Ora a segurança, como um fim do Direito, quando falha deixa os homens e os seus bens desprotegidos e, logo, à mão dos mais poderosos, dos mais fortes ou dos mais “espertos”. Precisamos, todos, de saber na verdade quais os efeitos de determinados comportamentos futuros para planear a vida, tanto quanto de sentir que o Estado não deixa na impunidade a violação das leis e num tempo justo e razoável.

É claro que, a montante fica o problema da feitura das leis, tantas vezes marcadas pela imperfeição e ignorância dos legisladores se não, mesmo, por maliciosos interesses de classe ou corporativos e ideológicos indiferentes à nossa situação real e aos nossos verdadeiros interesses colectivos. E a jusante, um outro, também relevante, que é o de habilitar, no âmbito do Estado de direito, o poder judicial com os meios necessários ao exercício das suas competências em tempo e com eficácia.

Pelo meio caberá referenciar a necessidade de simplificar as leis, sistematizá-las, e evitar a disseminação de normas jurídicas em caudais de sobreposição e incoerência sucessivos. E, também, a urgência de melhor formar todos os agentes da justiça numa sociedade de risco acrescido, volátil e cada vez mais complexa.

O Direito é, de certo modo, o reflexo da nossa sociedade e, mudando esta, aquele não poderá deixar de se adaptar aos nossos contextos sociais. Mas o Direito tem, também, a missão de guiar, organizar, reger a sociedade numa perspectiva de reforma social.

Afinal é a organização da vida em sociedade que também aqui está em causa. E as patologias sociais não deixam de ter repercussão na realização histórica e normativa do Direito.

O que vale por dizer que a questão essencial é do domínio da política e é aí que terá de encontrar soluções globais e concretas.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O FIM DA HISTÓRIA


Nem de perto, nem de longe, a democracia liberal se poderá considerar como o cume da ambição política dos homens

Em 1989, Francis Fukuyama, conhecido politólogo norte-americano, interrogou-se sobre “o fim da história”, afirmando que a democracia liberal poderia constituir o ponto final da evolução ideológica da humanidade e, também, o formato final do governo humano. Quando expressou, em artigo de revista, esta opinião ainda estava de pé o muro de Berlim, mas o certo é que a queda deste, e outros acontecimentos posteriores, pareceram dar-lhe razão e apontar para uma nova ordem mundial com a expansão da democracia liberal pelo mundo fora.

Em 1992, já após grandes mudanças na cena internacional, aquele autor reforçou a sua convicção no célebre livro “O fim da história e o último homem”. No plano dos princípios – que não da realidade – a democracia liberal seria o cume da ambição política possível dos homens.

Em Portugal vivemos em democracia liberal no que ao sistema constitucional diz respeito, ou seja, no plano dos princípios. A realidade quotidiana, porém, contradiz, amiúde, esta conclusão deixando atrás de si um rasto, dramático, de injustiças e de graves problemas sociais. Na verdade, na mais ou menos estável democracia actual, assumem, ainda, grande relevância as “ineficiências”e a realização incompleta dos valores essenciais da liberdade e da igualdade, entre outros.

Nem de perto, nem de longe, a democracia liberal se poderá considerar, pois, como o cume da ambição política dos homens, como pretendia Fukuyama. E não só relativamente a Portugal, mas, também, quanto à generalidade dos países onde prevalece a “modernidade ocidental” e os seus valores Kantianos.

A democracia caracteriza-se, também, por ser um processo em curso, um projecto sempre inacabado e implica, decerto, um combate dramático para todos e de duração incerta.
Talvez valha a pena, então, rever algumas ideias aparentemente correctas que marcam o presente à luz desta perspectiva. E, no transe, particularmente importante será olhar o mundo no tempo actual de pretensa saída de uma profunda crise financeira, económica e social. Crise que, de resto, o foi por muitos mas, também, passou ao lado de outros e, até, beneficiou alguns.

Parece, por vezes, face às acções e reacções de alguns protagonistas da vida pública, que, afinal, nada aconteceu e nada há que mudar. Pior, já estão a sair das tocas onde se abrigaram muitos dos progenitores dos factos causadores da crise. E reaparecem com a mesma sobranceria de outrora, a mesma manha de sempre e à espera da tradicional impunidade que é concedida aos poderosos sem escrúpulos.

Quando se coloca o passado recente em perspectiva e se analisam os perigos, riscos e ameaças que o informaram, a ética política mais elementar exigiria que ao “mundo da vida” fosse dado outro encaminhamento e não se repetissem os erros do passado. O que parece possível de perspectivar já é, porém, diferente do que seria desejável. E, assim, a crise vai ficar com os que mais vítimas dela foram, deixará incólumes os que apenas a avistaram ao longe e abrirá novas auto-estradas douradas aos que sempre manipularam os interstícios dos poderes.

Afinal apenas alguma coisa mudará para que tudo possa, no essencial, continuar na mesma.

Falta coragem, com efeito, para mudar o paradigma político que levou à crise e para avançar para um outro modelo de relações entre as instituições e as pessoas que não seja intermediado apenas pelo espírito do lucro a qualquer preço.

O ideal da democracia liberal, forte no plano dos princípios, claudicou rotundamente com a emergência da crise recente. Mas não foi o “fim da história”.

Há que retomar a acção política tendo por horizonte o triunfo, um dia, do “espírito das luzes” à boa maneira de Kant, Condorcet, ou de Fukuyama e, também, de Hegel. Complicado? Apenas para quem está instalado na rotina dos seus “direitos adquiridos” e alheio à trágica via sacra dos que os não têm.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

CRISE, MEDO E SOCIEDADE


Portugal é hoje um país que sobrevive numa fatídica dependência de tudo e de todos em permanente fuga de si próprio.

É já inequívoca a existência de uma grande fractura social em Portugal. De um lado, lixo e luxo, de origem tantas vezes duvidosos, mas que permanecem na sociedade portuguesa sem necessidade, sequer, de fugir ao exibicionismo. Do outro, a miséria social e a pobreza envergonhada que já assumem foros de calamidade pública. No meio, milhões de cidadãos à espera de cair para um ou o outro lado, agravando-se, assim, potencialmente, a dita fractura social.

A envolver a situação – e a mistificá-la – inúmeras querelas políticas artificiais, ou marginais, vão entretendo a opinião pública e publicada, onde não se dá voz a quem não a tem, onde todos os dias se hostilizam progressivamente as referências históricas e culturais da nossa cultura e da civilização que herdámos, onde ler, interpretar e perspectivar o país já não é objectivo político nacional prioritário.
Dizem os que o estudaram, que o tempo actual muito se aproxima, no que se refere à crise nacional que hoje vivemos, do fim da Monarquia. E, dramaticamente, ninguém rema contra a maré! Para além de uns laivos de tecnocracia (tantas vezes arrogante) nada se perspectiva quanto a uma outra visão política e cultural do País. E é aqui que residem as soluções – se soluções ainda houver! – para mudar realmente o caminho descendente e de perdição em que estamos.
Os economistas, na sua arte tantas vezes não mais que adivinhatória, já repetiram à exaustão todos os clichés da crise. Projecções e mais projecções e seja o que Deus quiser, afinal.
Os políticos, fora das campanhas eleitorais, descem, por vezes, á realidade e tratam mas é da sua vidinha, que isto está mal para todos. Haja orçamento e poleiros na comunicação social que o resto se resolverá.
Como sair, então, deste atoleiro de angústias onde o medo físico e social, o psicológico e outros, alguns até imaginários, já consomem o nosso mínimo bem estar emocional?
O medo é crescentemente uma variável do nosso quotidiano e quem detém o poder – o poder político, o poder financeiro e outros bem mais subtis, por vezes – sabe-o bem e manipula-o. Mas governar servindo-se do medo é o último degrau da decadência política e aponta para a crise derradeira da democracia representativa.
O espaço político está em acelerada e profunda transformação, na Europa e no mundo. Decerto que Portugal está imerso nessa transformação, mas mais como objecto do que como sujeito. Dependemos da retoma do comércio mundial, das taxas de juros fixadas lá fora, do investimento estrangeiro que há-de, ou não, chegar, das necessidades de outros países nos nossos escassos recursos materiais e humanos.
Portugal é hoje um país que sobrevive numa fatídica dependência de tudo e de todos em permanente fuga de si próprio. Tanto quanto, de resto, muitos de nós escamoteamos a real situação do país – a nossa casa comum – a das nossas comunidades e relações na ilusão de que os problemas se desvanecerão, mais cedo ou mais tarde, sem que tenhamos de fazer grandes sacrifícios para aí chegar.
É inegável a habilidade com que, mediante estratégias várias, individuais e colectivas, vamos afastando calamidades iminentes. Sempre assim terá sido e, muitos, esperam que assim continue a ser. Mas também é possível que se aproxime o dia do juízo final e o fim de todo o acervo de pretensos direitos adquiridos.

Os economistas, os políticos e tantos outros técnicos de ideias geniais não fariam mal, porventura, em ser menos arrogantes nos seus saberes mundanos e em ouvir e interpretar o bater exausto do coração deste país exíguo.
É tempo, por tudo o que fica dito, ou apesar disso mesmo, de sonhar em Portugal.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

REVOLTA E IMPOTÊNCIA


Um país político parado no tempo, sentado à mesa de curto orçamento, incapaz de se confrontar com uma nova, outra, visão do Homem, da sociedade ou do futuro, é tudo o que, de facto, parece marcar a actualidade triste destes dias sem fim.


O Orçamento de Estado para 2010 cuja preparação actualmente envolve o Governo e, por circunstâncias óbvias, ligadas à fragmentação parlamentar, implica condescendência da Oposição, será, também, o espelho de um Estado Exíguo (Adriano Moreira) carente de recursos e de capacidades, tanto quanto de uma estratégia nacional, o que, de tudo, é o mais dramático.

Mas, uma vez mais, será, ainda, a expressão inequívoca da crise de valores que nos trespassa e da falta de elites políticas que os suportem.

Não se antevêem, com efeito, grandes causas para “orçamentar”, nem elites capazes da mudança que urge imprimir à sociedade amorfa e balofa que é a nossa, onde mais que tudo se combate pela perpetuação de velhos interesses, de “direitos adquiridos” e do hedonismo de pés de barro, a qualquer preço.

Os “custos do contexto”, interno e internacional, prevalecerão, uma vez mais, ostracizando e adiando o confronto de Portugal com os desafios que são os seus.

Um país político parado no tempo, sentado à mesa de curto orçamento, incapaz de se confrontar com uma nova, outra, visão do Homem, da sociedade ou do futuro, é tudo o que, de facto, parece marcar a actualidade triste destes dias sem fim, não obstante algumas hesitantes palavras de confiança e de esperança que, por dever de ofício, alguns apregoam, mas a que o discurso do pessimismo e da derrota iminente, de outros, retira credibilidade e força anímica.

Muitos, muitos portugueses já não acreditam em Portugal.

E não me refiro, apenas, àqueles que se profissionalizaram, há muito, a desviar pecúlio para paraísos fiscais e contas na Suíça. Não aponto, também, para aqueles que a nossa sociedade, egoísta, atirou para a valeta e trata como lixo social. Tenho em mente, antes, o cidadão comum, honesto, trabalhador, civicamente integrado, pagador de impostos, solidário, de cepa patriótica e convicções democráticas – tanto quanto a geração que neles desponta para um tempo tão incerto quanto dramático.

Há, no ar, generalizado, um sentimento de revolta e de impotência face às agruras quotidianas e não vale a pena escamotear a situação. É urgente, assim, dar corpo a novas ideias e maiores ideais do que aqueles que nos têm marcado a vida. Tudo é demasiado pequeno, hoje, e nada se perspectiva para mudar as coisas num horizonte bloqueado e asfixiante que, por vezes, lembra mesmo os tempos do Marcelismo. O politicamente correcto, com efeito, reina em todo o seu dramático esplendor por entre alguns cortes fracturantes, marginais aos valores tradicionais, seculares, do povo e dando relevo singular à ditadura de minorias activas. Aqui assume particular importância o pretenso casamento entre “gays”, hoje na ordem do dia, que nada tem de casamento, ainda que sendo expressão de uma realidade digna de tratamento jurídico, diferenciado, porém, daquela secular instituição. Um país anémico assiste, no entanto, ao vencimento destes totalitarismos ignaros que pretendem anular a diferença inevitável entre a igualdade e o igualitarismo num cadinho de ideias fatídicas e que levam no bojo futuros tão insondáveis quanto maquiavélicos.

Apesar de numa sociedade aberta (Karl Popper) um valor fundamental ser a humildade intelectual, é incontestável que não pode valer tudo, todos e quaisquer fins, e a arbitrariedade de meios para lá chegar. Nem a democracia pode consentir totalitarismos de minorias.

Entretanto caminhamos sem destino certo ou previsível, por entre encontrões idiotas que não nos levam a lado nenhum – ou nos encaminham para qualquer lugar. O desnorte reina neste início de ano e Portugal está refém de guerrilhas partidárias de mau augúrio.

A democracia encerra em si, como, decerto, nenhum outro regime, a virtualidade de se regenerar por si. Mas a vontade cívica tem, aí, um papel determinante e é por isso que hoje, mais do que nunca, a emancipação da sociedade civil é um imperativo categórico.

Se necessário contra, mesmo, os partidos deletérios que a amordaçam tantas vezes.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

ILUSÕES IBÉRICAS

A verdade é que se arrastam complexos e desconfianças entre os empresários de um e outro lado que estão longe de estar geralmente resolvidos.

Anda por aí a circular desde há tempos mais uma ideia peregrina mas que, apesar disso, vai pondo alguns incautos de nariz arrebitado à espera que desta vez surja o negócio da vida deles. Astuciosa, ou dolosamente, com efeito, vêm alguns especialistas em crises defendendo que é altura de os empresários portugueses “irem às compras em Espanha” porque, dizem, haverá muitas empresas espanholas a atravessar dificuldades e que, por isso, poderão ser adquiridas a preços muito competitivos…

O mito espanhol ou ibérico é, de tempos em tempos, de facto, um companheiro de divagações, mais ou menos insensatas, ressuscitado por alguns incautos que julgam que é lá fora que está a solução dos nossos problemas , mesmo quando, formalmente, defendem a manutenção dos centros de decisão em Portugal – como aconteceu, não há muito, através de um manifesto de triste memória e de efeitos contraprocedentes, como alguns se lembrarão.

Ora é óbvio que não há qualquer solução vinda de fora que resolva os nossos problemas estruturais enquanto, cá dentro, não tivermos a casa arrumada. E, mesmo, quando a crise internacional já tiver passada à história, ainda aí teremos de nos encontrar com os nossos próprios problemas que, esses sim, são os reais problemas que nos cumpre resolver.

Ir às compras a Espanha é, pois, na situação actual, uma piedosa intenção. Mas já teria algum sentido, porém, buscar parcerias com algumas empresas espanholas, sobretudo para atingir massa crítica e escala que viabilizasse a expansão conjunta para novos mercados, designadamente da África da língua portuguesa ou da América Latina onde Espanha também tem um passado notável de relacionamento económico cultural.

A verdade, pura e dura, é, porém, que se arrastam complexos e desconfianças entre os empresários de um e outro lado que estão longe de estar geralmente resolvidos. E daí que cada qual continue a lutar isoladamente pelos seus interesses quando, juntos, poderiam almejar voos muito mais altos. Não é, seguramente, porém, através de compras ao desbarato de empresas espanholas que se constrói o futuro do nosso país quando o passado evidencia, até, que o que havia de bom para “comprar” (sobretudo em Portugal) já está nas mãos do capitalismo financeiro do nosso vizinho. Que comprar, pois, em Espanha? O lixo falido que os empresários locais não querem?

Haja bom senso e transparência. Haja, também, patriotismo quanto baste – e não mais – para continuarmos a ter a dignidade da soberania que, julgo, ninguém quer desbaratar.

Espanha é um parceiro incontornável da nossa economia e da internacionalização de negócios no mundo global em que vivemos. Mas não pode ser vista em perspectiva simplista de simplórios que, porventura, não buscam, senão, pretensos planeamentos fiscais agressivos que levam no bojo a fraude e a evasão, quando não, até, a mais sórdida corrupção económica. E Portugal também não poderá ser encarado – o país, os seus empresários, os fundos e subvenções de que dispomos para o desenvolvimento nacional – como uma coutada em que qualquer um pode caçar sem regras e, depois, ao primeiro sinal de dificuldade, abandonar ou, então, depois do tacho rapado, ignorar à sua sorte.

Afinal há muito espaço e tempo em que os dois países podem enraizar as suas melhores esperanças de colaboração no mútuo interesse.

Quando, porém, o pêndulo cai só para um lado não há, para ninguém, razão de contentamento.

Quanto muito há ilusões e, estas, às vezes têm um preço muito alto.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

DE MAL A PIOR


No tempo em que vivemos, recrudescem as paixões e os ódios e rarefazem-se os princípios e os valores.

Que me lembre, nunca a actividade político-partidária vegetou, tão baixo, no lamaçal da incompetência, do embuste e do egoísmo.

Os eleitos são de extracção cada vez mais medíocre e o que trazem à agenda política – e o modo como o tratam – demonstra geralmente as mais preocupantes carências de conhecimentos, verticalidade e carisma. Vivem da chicana partidária (com raras excepções) e do maldizer permanente, fazendo, muitas vezes, dos corredores do poder meras sucursais dos seus negócios e vendendo-se a troco de um qualquer prato de lentilhas.

A política partidária que se prossegue entre nós não é, também, uma actividade posta inegavelmente ao serviço do interesse nacional. Visa, directa ou indirectamente, quase sempre, apenas a conquista ou a manutenção do poder que há-de, depois, ser distribuído aos famélicos dos aparelhos partidários, que é quem nos governa, na realidade.

O egoísmo – e o individualismo – tomaram conta, por outro lado, do quotidiano político num “salve-se quem puder” em que tudo vale. A corrupção instalada, como se tem visto, a todos os níveis do Estado (e manipulada por aqueles que o servem ou serviram um dia) é uma expressão perfeita de que o país está em declínio moral, à míngua de princípios e valores que rejam as relações entre governantes e governados.

Acontece, porém, que é disto que certa comunicação social miserabilista gosta e, daí, que lhes garanta a publicidade que almejam. E, com publicidade garantida, está meio caminho andado para levarem por diante reiteradamente os seus interesses pessoais e partidários.

Neste mefistofélico arco-íris os políticos, acossados pelo poder judicial, vitimizam-se e, enquanto podem, vão-se aguentando no barco desprezando a ética de que deveriam ser os primeiros a dar o exemplo.

O poder judicial, por seu turno, carece de meios, humanos e materiais, para cumprir cabalmente a sua missão nos quadros da lei e do princípio democrático mostrando-se, também, por vezes, assaltado por esporádicas tentações para descambar para uma “república dos juízes”.

Assim, a judicialização da política e a politização da justiça são, hoje, reais ameaças à democracia cujos pilares vacilam, também, no meio de uma profunda crise económica e financeira.

A vida cívica não está, pois, fácil e a democracia corre perigo a prazo, também porque a ingovernabilidade do país já se evidencia na assumpção de poderes exorbitantes por um Parlamento que não governa (nem deve) nem deixa governar (e devia).

Vamos de mal a pior cada dia que passa. E se alguns nem consciência têm das consequências dos seus actos, outros exercem os poderes que lhes foram atribuídos numa perspectiva meramente destrutiva de quanto pior, melhor.

No tempo em que vivemos, neste país saído recentemente de eleições democráticas, recrudescem as paixões e os ódios e rarefazem-se os princípios e os valores de uma comunidade solidária em busca de um destino colectivo e melhor. Também se esvai a expectativa de um outro futuro baseado em ideias e ideais inspiradores do amanhã. Afinal o que conta, para uns, é ter poder e distribuí-lo pela família e, para outros, destruir esse poder sem apresentar, porém, alternativas sadias ao estádio actual da sociedade. E é neste jogo de soma nula que nos vamos consumindo sem expectativas de sair do declínio presente.

As grandes batalhas políticas de hoje cingem-se a pequenas traições e a grandes manipulações em que o interesse nacional já não conta para nada. O eclipse político de Portugal aproxima-se a passos largos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

UMA NOVA ESPERANÇA


Num mundo em acelerada transformação, a primeira obrigação de todos os responsáveis políticos deveria ser a procura do sentido e da inteligibilidade do tempo actual.

Aí está o novo Governo, constituído nos limites e fronteiras que o sistema democrático em vigor permitiu.

Seja ou não o Governo do nosso contentamento, tem de ser tido como Governo para todos os portugueses, porque do seu sucesso ou insucesso todos sofreremos as consequências. E, como um dia disse Roosevelt, “Se fracassar, ao menos que fracasse ousando grandes feitos, de modo que a sua postura não seja nunca a dessas almas frias e tímidas que não conhecem nem a vitória nem a derrota.” Mudando o que é de mudar, julgo que deverá ser este o lema dos próximos governantes.

Advinha-se, porém, que o país vai estar em permanente estado de pré-campanha eleitoral nos tempos que aí vêm e que só por acaso serão tomadas medidas de fundo, alternativas às políticas actuais, nas áreas mais complexas da governação. Em tal contexto relevará, decerto, a política maquiavélica em desfavor da arte política fundada em pressupostos doutrinários e no seu aprofundamento. Ora, num mundo em acelerada transformação, a primeira obrigação de todos os responsáveis políticos deveria ser a procura do sentido e da inteligibilidade do tempo actual, articulando ética, política e economia no horizonte que é o nosso. Hoje, porém, ainda se desenvolve a actividade política (e partidária) segundo os cânones de antes da crise, usando-se ferramentas velhas e gastas, assentes em dogmas que já perderam sentido.

Ao contrário do que ainda é um pressuposto da generalidade dos eleitos, no Governo ou na Oposição, “o presente já não é algo que simplesmente se oferece ao nosso olhar, sem empenhamento teórico, interpretativo e antecipatório” (…) “O estudo da sociedade dá-nos hoje a imagem de um campo desestruturado e não a de um objecto iluminado pelo saber e cujos elementos se inserissem num todo coerente” (Daniel Innerarity, A sociedade invisível). Assim sendo, num mundo mais próximo do caos que da ordem e onde os riscos sistémicos se nos atravessam a todo o instante no caminho, é imperativo observar e interpretar, reflectir e estudar, antes de agir. Tudo o que, porém, a nossa classe política não faz e até desdenha.

É o tempo da utopia que urge, porém, viver-se com novo fulgor.

As ferramentas velhas do pensamento prevalecente já não têm futuro, e o futuro não divisa, ainda, as novas artes que o hão-de armar. O discurso sobre o novo – dos pressupostos ao possível – tem de ser tomado a sério para sobrevivermos à crise actual e para alicerçar as novas fronteiras do amanhã.

A pobreza intelectual tem-se acentuado na vida política, muitas vezes vista como mera forma de ganhar facilmente a vida. Entre nós não são as qualificações pessoais, nem o nível de competência, que contam para governar ou fazer oposição. Os partidos, na sua ânsia desmedida de poder a qualquer preço, proletarizaram o exercício do poder e entregaram-no à astúcia, ao nepotismo, à corrupção dos espíritos.

É desta crise que, antes de mais, temos de sair.

Urge, pois, afastar a continuação da falta de política em prol de um pensamento político novo e diferente adaptável aos novos tempos. E, obviamente, encontrar novos protagonistas do futuro. Se tal não for feito, continuaremos a dançar numa roda de velhos e velhacos.